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Os próximos acordos de comércio do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) serão uma pressão adicional à agenda ambiental e de direitos humanos do País, à semelhança dos desdobramentos recentes do acordo com a União Europeia (UE).

Dando prosseguimento à política de abertura comercial, os próximos passos do governo, neste momento, é fechar um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA, em inglês), formada pela Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, conforme informado pelo subsecretário de Investimentos Estrangeiros do Ministério da Economia, Renato Baumann, no último dia 25, a este jornal. O Canadá também está dentre as prioridades do Executivo.

O professor de relações internacionais da FAAP, Vinicius Rodrigues Vieira, avalia que esses mercados, assim como a União Europeia, são altamente exigentes com relação a produtos de responsabilidade ambiental e social.

“A Noruega tem uma agenda até mais forte [que os demais] nesse sentido”, ressalta Vieira. Ele admite que as recentes declarações do presidente Jair Bolsonaro (PSL) a respeito do desmatamento e do trabalho escravo, bem como a liberação de mais de 260 agrotóxicos, são, de fato, contraditórios com o perfil de grande parte dos mercados com os quais o Mercosul têm negociado acordos.

Porém, para Vieira, a postura técnica do Ministério da Economia e o respeito às regras dos tratados firmados são o que devem prevalecer no final, em meio à conduta polêmica do presidente. O professor da FAAP diz que há uma motivação meramente prática nesse sentido: que é o esforço do Brasil de se adaptar às tendências de mercado dos países desenvolvidos para atender, por exemplo, os interesses do próprio agronegócio brasileiro.

“É preciso aumentar os padrões de qualidade da produção para lucrar mais e não ao contrário”, ressalta Viera. O professor espera que a concretização desses acordos faça o Brasil rever medidas políticas que estão sendo tomadas nas áreas ambiental e social, até para que as empresas nacionais não percam mercado.

“Não podemos esquecer também que é do interesse do presidente da Argentina [Mauricio Macri] firmar esses acordos para ficar bem politicamente com os produtores rurais e com a classe média e, assim, poder se reeleger”.

O professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), Carlos Eduardo Vidigal, acrescenta, por sua vez, que os europeus têm pressa em firmar acordos comerciais, já que as possibilidades de avanço comercial estão ficando menores, diante do cenário internacional de maior protecionismo econômico.

“Os mercados europeus são relativamente pequenos. Portanto, qualquer oportunidade de fazer avançar as trocas comerciais, garantindo, por exemplo, melhores preços, são bem-vindas”, comenta Vidigal.

O professor de relações internacionais da ESPM, José Luiz Pimenta, afirma que as movimentações da equipe de comércio exterior do governo mostram que o Brasil quer e vai acelerar, não somente acordos com a EFTA e Canadá, como também com Cingapura, Coréia do Sul, Japão, Estados Unidos, entre outros. “O Brasil tem estado muito engajado nesta área”, afirma Pimenta.

Na avaliação dele, os acordos com a EFTA e com o Canadá movimentarão as trocas comerciais do Brasil na área do agronegócio, como exportação de carnes (de frango, bovina e suína), grãos e frutas, bem como novas possibilidades de venda e compra de produtos químicos, farmacêuticos e máquinas e equipamentos.

Principais produtos

O maior mercado da EFTA é a Suíça. Dentre os principais produtos que o Brasil vende ao país são artigos de próteses e de ortopedia, carnes, ouro, máquinas agrícolas, partes e peças de equipamentos, etanol, frutas e pedras preciosas.

Já na importação, o maior fluxo é o de máquinas e equipamentos industriais, aparelhos médicos, medicamentos, químicos e chocolates. Nosso saldo de comércio com a Suíça ficou negativo em R$ 813 milhões no primeiro semestre.

Ao Canadá, o Brasil vende açúcar, café, frutas, sucos, partes de equipamentos, carnes, minérios de ferro e ouro. Já a importação é, em grande parte, de manufaturados. Nosso saldo com o Canadá é positivo em R$ 579 milhões.