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O alto endividamento das famílias e a falta de perspectiva sobre a melhora do mercado de trabalho limitará a renegociação de dívidas em 2019. A expectativa é de que a melhora na recuperação de crédito seja adiada até que haja alguma iniciativa de parte do governo.

Os últimos dados do boletim de operações de crédito do Banco Central (BC) apontam que o endividamento das famílias atingiu em janeiro último o maior patamar em dois anos, ficando em 42,9%. No primeiro mês de 2018 era de 41,3% e em igual mês de 2017 era de 41,9%.

De acordo com o CEO da Blu365, Alexandre Lara, apesar das sinalizações de melhora da economia, o ano de 2018 foi aquém do esperado em relação à renegociação de dívidas. “Foi um ano muito duro e de inadimplência recorrente, o que evidenciou ainda mais a falta de liquidez provocada pelo desemprego e pela queda de renda. Há uma busca pelo alongamento da dívida, mas ainda existe certa restrição bancária. Para 2019, a única coisa que mudou é que há um otimismo maior. Mas ainda são apenas expectativas”, afirma.

Ainda segundo o BC, no entanto, o montante cedido pelo sistema financeiro para composição de dívidas de pessoas físicas atingiu R$ 2,463 bilhões em fevereiro deste ano, um aumento de 36,4% frente ao mesmo mês de 2018 (R$ 1,806 bilhão).

Para o professor de economia e pesquisador do Centro de Liberdade Econômica da Universidade Presbiteriana Mackenzie Ulisses Ruiz de Gamboa, porém, embora o nível de calotes permaneça em um patamar baixo, todos os agentes do mercado ainda estão “monitorando o cenário de desemprego” do País.

“De um lado, os bancos frearam um pouco a concessão desde a crise e, de outro, as famílias também não estão muito propensas à dívida e esse é o único motivo pelo qual a inadimplência não estourou. A renegociação depende fundamentalmente da recuperação do emprego e o preocupante é que não há nenhum motor de crescimento que possa alavancar esse resultado”, destaca.

O cenário também se reflete nas pessoas jurídicas que, apesar de demonstrarem melhora quanto a anos anteriores, ainda registram um alto índice de inadimplência. Segundo os últimos dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), o número de empresas com contas em atraso subiu 5,91% em janeiro contra igual mês de 2018. Em relação a dezembro, a alta foi de 7,44%.

“Na renegociação de dívidas, o cenário corporativo está ainda pior do que o de pessoas físicas. A menor taxa de recuperação vem porque muitas empresas fecharam as portas e não têm como arcar com as dívidas que sobraram, principalmente porque os credores acabam sendo os últimos a serem pagos, já que a preferência são as dívidas trabalhistas”, diz o diretor da Multicrédito, Carlos Eduardo de Oliveira Souza.

À espera do governo

Ao mesmo tempo, os especialistas reiteram que a falta de posicionamento do governo sobre iniciativas que “destravem a produção e o crédito no curtíssimo prazo” também acaba sendo um empecilho.

De acordo com Gamboa, mesmo que a reforma da Previdência seja importante, é preciso um “gatilho” na retomada, que viria com uma redução na burocracia e com a facilitação de empréstimos.

“Estamos em um ciclo vicioso. O desemprego alto não gera consumo e, sem ter para quem vender, o empresário não toma dinheiro emprestado e nem contrata novas pessoas. É papel do governo também se preocupar com a economia no curto prazo”, diz o acadêmico.

“Melhoraremos apenas conforme as ferramentas que o governo use para esse incentivo. Essas iniciativas são necessárias para que o mercado libere o crédito para o público que demanda. Mas isso deve vir somente daqui seis meses a um ano. Só em 2020 poderemos ter algum reflexo mais considerável nesse cenário”, completa Souza, da Multicrédito.