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Hoje faz 25 anos que o Plano Real foi implementado no Brasil, proporcionando, finalmente, uma estabilidade econômica, após um forte período de descontrole da inflação entre os anos de 1980 e 1994.

Um pouco mais de duas décadas depois, o País continua com muitos desafios pela frente e com a necessidade de um novo “Plano Real” que envolva, agora, mudanças profundas na estrutura produtiva brasileira, avaliam especialistas consultados.

Essa agenda perpassa reformas que vão desde a tributação até a introdução de novas tecnologias nos processos de produção, que visem, também, responsabilidade social e ambiental, comenta o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin.

Ele conta que as estratégias industriais de inúmeros países (como, por exemplo, a Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Índia e China) estão focadas, desde 2012, em utilizar as novas tecnologias como a digitalização, indústria 4.0, automação e inteligência artificial a serviço de uma estrutura produtiva mais responsável com o meio ambiente e com a sociedade. Trazendo para a realidade do Brasil, isso significaria, por exemplo, investir em pesquisa e inovação para cultivar grãos com cada vez menos agrotóxicos e produzir carnes que não usem tanta água e nem emitam tanto gás de efeito estufa.

“Nós precisamos caminhar em direção ao que há de mais avançado no mundo, até para não perdermos mercado externo e o protagonismo da nossa agropecuária”, alerta Cagnin. O atual governo já liberou um total de 239 agrotóxicos.

O coordenador do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), Ricardo Balistiero, tem a mesma preocupação. Ele ressalta que, enquanto há movimentos interessantes no sentido de reformas fiscais e tributária, os pilares de sustentabilidade e educação têm sido deixados de lado pelo atual governo.

“Em seis meses de gestão, não foi apresentada nenhuma proposta para a educação de base, para a formação de professores. Isso preocupa, porque, no fundo, investir em educação é investir na produtividade da nossa economia”, comenta Balistiero.

Para ele, um “Plano Real” urgente também envolve mudanças microeconômicas: uma delas é o estabelecimento de regras e marcos regulatórios estáveis, especialmente para os que contemplam projetos de infraestrutura. “Os governos mudam a regra do jogo a todo o momento. Não há segurança jurídica nos projetos de infraestrutura. Esse cenário dificulta muito a atração de capital do curto prazo”, destaca o coordenador do IMT.

Para ele, destravar esses projetos por meio da estabilidade de regras significa alavancar os investimentos e elevar o nível de empregabilidade do País.

Mudanças nos impostos

Uma outra reforma muito reforçada pelos especialistas é a tributária. O professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Geraldo Biasotto Júnior, lembra que uma parte da estrutura tributária que temos hoje data de 1966.

“A reforma feita naquele ano tinha coerência, era moderna para a época, porém foi se deteriorando e o que temos hoje é uma estrutura que joga contra a economia, investimento e geração de renda. Seja pela complexidade ou tributação excessiva”, afirma Biasotto.

Ele e Balistiero concordam que a proposta de reforma de autoria do economista Bernard Appy e do deputado Baleia Rossi (MDB-SP), que está no Congresso Nacional, tem bons princípios e deve reduzir a complexidade tributária.

Outro pilar importante é o fiscal. Sobre isso, o professor de economia da PUC-SP, Leonardo Trevisan, diz que o Brasil precisa enfrentar o “vespeiro” da folha salarial do funcionalismo público. Para ele, esse é um dos principais estimuladores da indisciplina fiscal no País. Trevisan defende uma reestruturação do funcionalismo para que o Estado abra espaço para fazer investimentos.

Sucesso na estabilidade

No dia 1º de julho de 1994, foi implantada a última fase do Plano Real, momento em que a população brasileira trocou a moeda antiga, os Cruzeiros Reais, pela nova: o Real. O projeto foi bem sucedido em estabilizar a economia, após inúmeros fracassos que serviram de aprendizado para a equipe econômica do então presidente Itamar Franco (1992-1994), comandada por Fernando Henrique Cardoso (Fazenda).