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O cadastro positivo trará maior restrição de crédito para os maus pagadores. A abertura dos dados, por outro lado, também pode provocar um aumento da nota de crédito para 60% da população que, atualmente, tem dificuldade no acesso a empréstimos.

O projeto, aprovado na quarta-feira da semana passada pelo plenário do Senado Federal, tornará compulsória a entrada no cadastro positivo de todas as pessoas físicas e jurídicas, com a criação de um banco de dados sobre informações de pagamentos em débito e quitados em uma espécie de histórico de crédito do tomador.

De acordo com o CEO da Foregon, Gustavo Marquini, porém, o movimento deve fazer com que os maus pagadores “percam espaço” no mercado de crédito. O movimento, segundo ele, promoveria uma maior educação financeira dos tomadores.

“Na minha visão, terá uma restrição muito forte para os maus pagadores, já que ninguém cede crédito para não receber. Essas instituições financeiras ganham dinheiro com quem paga errado, com atrasos de dois dias a uma semana e não com quem não paga”, explica o executivo, mas pondera que não é porque os “maus pagadores vão perder espaço” que a expansão de crédito deixaria de acontecer.

Os últimos dados do SPC Brasil, apontam que o mês passado encerrou com 62,01 milhões de brasileiros negativados. O número representa 40,1% da população acima de 18 anos. Na estimativa por região, o Sudeste foi o que mais registrou consumidores inadimplentes, com 26,63 milhões de pessoas (39,9% da população adulta local).

Na estimativa por faixa etária, a maior frequência de consumidores com contas em atraso ficou com aqueles entre 30 e 39 anos. Em fevereiro, 51,1% da população nessa faixa de idade estava inscrito em alguma lista de devedores.

“Não necessariamente aqueles que estão negativados são maus pagadores. Muitas vezes, eles se tornaram inadimplentes por questões de desemprego e falta de organização orçamentária pessoal. Se eles tiverem uma oportunidade boa de crédito, que caiba no bolso, eles vão pegar”, complementa Marquini, da Foregon.

Para o presidente da Associação Nacional de Bureaus de Crédito (ANBC), Elias Sfeir, apesar do prazo de 24 meses previstos em lei para que o Banco Central apresente a evolução das taxas de juros no mercado depois da implementação do cadastro positivo, os resultados devem começar a aparecer em menos tempo.

“Além da maior competitividade no mercado que o projeto deve trazer, também prevemos um crescimento na inclusão financeira”, afirma o executivo. Segundo Sfeir, um estudo realizado pela ANBC registrou que, com a implementação do cadastro positivo, cerca de 60% da população das classes C, D e E teriam melhores scores de crédito e mais acesso a financiamentos.

“Existe muita gente desbancarizada, mas praticamente todo mundo tem celular e paga água, luz e gás. O projeto incluiria essas verticais e tornaria essa porcentagem da população visível às instituições financeiras, facilitando o empréstimo a esses consumidores”, acrescenta o presidente.

Portabilidade

Na mesma linha, o movimento de adoção do cadastro positivo também pode abrir portas para a criação de novos produtos personalizados no mercado, voltados para bons pagadores e que supram algumas lacunas que o sistema financeiro não atende atualmente.

De acordo com Marquini, além do crédito, mas o setor dos birôs de crédito também deve se movimentar, com novos players surgindo.

“Outra vertente interessante é que a redução das taxas de juros também impulsionará mais casos de portabilidade por exemplo. Além disso, os birôs começarão a ganhar concorrência e o mercado inteiro vai sentir grandes transformações, começando, principalmente pelas fintechs. Acredito que em seis meses já começaremos a ver mudanças na aprovação de crédito dessas iniciativas. Aos bancos, por outro lado, a cauda é mais longa e as alterações só vêm em 2020”.