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A corrente de comércio entre o Brasil e os Estados Unidos (EUA) começou 2018 em alta, ao crescer 7,7%, para US$ 8,6 bilhões, nos dois primeiros meses do ano, ante igual período de 2017, mostra o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

No entanto, decisões protecionistas do presidente dos EUA, Donald Trump, podem impactar negativamente as trocas entre os dois países. Na semana passada, Trump declarou que colocará barreiras às importações de aço e alumínio, elevando as tarifas dos dois produtos a 25% e 10%, respectivamente.

A professora de economia da Fecap Juliana Inhasz destaca que mais de 35% da produção brasileira de aço é exportada para os Estados Unidos e que uma eventual sobretaxação colocaria, ao menos, duas saídas para o Brasil: a primeira seria diminuindo muito o preço do produto para conseguir ganhar competitividade, reduzindo, dessa forma, as margens de lucro das siderúrgicas, que começaram a se recuperar em 2017. A outra seria buscar novos mercados, que, na avaliação de Inhasz, mesmo que conquistados, não seriam suficientes para suprir o que hoje é vendido aos EUA. “Um terço da nossa produção de aço vai para o mercado norte-americano”, destaca ela.

O professor de relações internacionais da FAAP Lucas Leite reforça que seria muito difícil para o Brasil realocar a sua produção de aço, principalmente em um contexto de acirramento da competição. “O Brasil ainda tem problemas estruturais que dificultam sua competitividade, como o déficit logístico, por exemplo”, diz. Contudo, ele sinaliza que mercados “substitutos” possíveis seriam os já tradicionais e industrializados, como os do China, Japão e europeus.

Nos primeiros dois meses de 2018, as exportações brasileiras aos EUA avançaram 9,7%, para US$ 4,089 bilhões. Os embarques de metais cresceram 41,9% no período, para US$ 669 milhões. Somente a venda de ferro e aço aumentou 39%, para US$ 526 milhões.

Para Inhasz da FAAP, uma eventual sobretaxação do aço pode se reverberar para outros produtos brasileiros, uma vez que a decisão acabaria criando uma “antipatia” das empresas nacionais com os EUA. Ela lembra ainda que a repercussão da nova fase da Operação Carne Fraca, envolvendo a BRF, também pode prejudicar as vendas de carne para o país parceiro nos próximos meses.

Sem apoio

Por outro lado, Lucas Leite da FAAP observa que há dificuldades para aprovar a medida no Congresso. “O Trump não tem apoio dos democratas e parte dos republicanos está ligado a indústrias que dependem do aço para produzir”, diz ele, citando os setores de automóveis e fábricas de latas de refrigerantes, de cervejas, por exemplo. Uma vez elevadas as tarifas de aço e de alumínio, os preços de produtos finais, como os de eletroeletrônicos, por exemplo, teriam que subir, impactando as próprias vendas norte-americanas.

O presidente do Conselho de Administração da Câmara Americana de Comércio (Amcham-Brasil), Hélio Magalhães, também disse ontem que a decisão do governo americano de aumentar as tarifas de importação é um obstáculo ao comércio internacional e vai afetar os Estados Unidos de forma negativa. No entanto, ele ressaltou que os efeitos da medida ainda estão sendo avaliados pela comunidade internacional. “Ninguém vê isso como positivo. A OMC [Organização Mundial do Comércio] certamente será acionada por outros governos. Provavelmente será rediscutido e não deve ser duradouro.”

O saldo comercial do Brasil com os EUA ficou negativo em US$ 442 milhões no primeiro bimestre de 2018, redução de 18,9% em relação a igual período de 2017, quando o déficit foi de US$ 545 milhões. As nossas importações dos norte-americanos cresceram 6%, para US$ 4,524 bilhões.