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Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O Banco Central decidiu manter nesta quarta-feira, por unanimidade, a taxa Selic na mínima histórica de 6,50% ao ano e ressalvou que, embora o balanço de riscos para a inflação tenha evoluído de maneira favorável, o risco relacionado à agenda de reformas é preponderante, o que prescreve manutenção do juro básico no atual patamar.

A decisão do Copom veio em linha com as expectativas de analistas consultados pela Reuters.

O BC excluiu o termo "simétrico" para se referir ao balanço de risco à inflação --utilizado no comunicado da decisão de maio. E informou que em seu cenário básico para a inflação permanecem fatores de risco em ambas as direções.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elencou três riscos: dois domésticos e um externo. Para o Copom, uma "eventual frustração" das expectativas para reformas e ajustes necessários à economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária.

Esse risco é intensificado, segundo o Copom, pelo risco relacionado a uma deterioração do cenário externo para economias emergentes.

Do lado benigno para a inflação, contudo, o "elevado" nível de ociosidade da economia pode continuar produzindo trajetória prospectiva abaixo do esperado para a alta dos preços.

Ainda no comunicado, o Copom reiterou que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, "com taxas de juros abaixo da taxa estrutural". A taxa estrutural é aquela que, teoricamente, não estimula nem restringe o crescimento econômico e mantém a inflação na meta.

Para o Banco Central, é importante observar o desempenho da economia brasileira ao longo do tempo, com redução do grau de incerteza a que continua exposta. Mas o colegiado do BC retirou do texto o entendimento anterior de que a avaliação sobre a economia "demanda tempo e não deverá ser concluída a curto prazo".

O texto do comunicado dá sequência às mudanças gradativas feitas pelo colegiado do BC no sentido de se ajustar ao cenário de atividade econômica e inflação mais fracas, o que tem corroborado expectativas de cortes da Selic nos próximos meses.

Em fevereiro, o Copom disse que o balanço de riscos para a inflação mostrava "assimetria" para uma inflação mais elevada. Já em março, o colegiado passou a considerar riscos simétricos, com atividade econômica em "ritmo aquém do esperado", mas em processo de retomada.

Em maio, o Banco Central manteve a leitura de balanço de riscos simétrico para a inflação, mas sugeriu piora na avaliação para a economia ao dizer que os indicadores sinalizavam "continuidade" do arrefecimento da economia do fim de 2018 para o início de 2019, esperando retomada do processo de recuperação "gradual".

Além disso, na ata da reunião do Copom de maio, o Copom reconheceu que os riscos associados à ociosidade dos fatores de produção haviam se elevado na margem.

 

ESTABILIDADE POR TEMPO RECORDE

Com a manutenção da Selic nesta quarta-feira, o Copom evita mexer nos juros pela décima reunião consecutiva, um recorde do regime de metas de inflação no Brasil. Entre setembro de 2015 e agosto de 2016, o colegiado do BC deixou os juros em 14,25% por nove reuniões seguidas.

No mercado de derivativos, a aposta predominante também era de estabilidade, mas contratos futuros de DI chegaram a indicar na semana passada mais de 20% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual.

A opção do Copom de manter a Selic se deu apesar do aumento da pressão por cortes da taxa, conforme a economia corre risco de entrar em recessão técnica, as expectativas de inflação perdem força –afastando-se mais do centro da meta-- e o mercado vê o ambiente político mais benigno, o que melhora a percepção sobre o encaminhamento da reforma da Previdência.

Em contratos de juros futuros na B3, o mercado já projeta Selic perto de 5,75% ao fim deste ano. Essa é a mesma taxa prevista para dezembro por analistas consultados pelo BC para a pesquisa Focus, que promoveram cortes expressivos nas estimativas depois de várias semanas seguidas de prognósticos de estabilidade em 6,50%.

A mesma pesquisa Focus passou a mostrar nesta semana previsão de crescimento do PIB abaixo de 1%, a apenas 0,93%, 16ª semana seguida de corte nas estimativas.