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Os atritos no ambiente internacional e no cenário político doméstico poderão fazer com que o dólar turismo navegue acima do patamar de R$ 4,20 ao longo de junho e julho, um período de férias para brasileiros no Hemisfério Norte.

Ontem, o dólar turismo em São Paulo encerrou os negócios entre R$ 4,21 e R$ 4.25 no balcão das corretoras de câmbio, enquanto o dólar comercial (para exportadores e importadores) ficou cotado a R$ 4,0478 no fechamento, baixa de 1,36%, mas ainda acima de R$ 4 por dólar.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China, que se estende a mais de um ano, foi o principal motivo da aversão ao risco de investidores e da volatilidade da moeda norte-americana no mundo nos últimos meses. Por aqui, de outro lado, a reforma da Previdência e a falta de articulação do governo também tem sido fortes influenciadores do câmbio.

“Esses são os dois assuntos que têm estado na pauta e não temos muito como fugir, exatamente porque dependemos de leituras mais positivas tanto a respeito da guerra comercial quanto sobre a aprovação da reforma da Previdência”, avalia o gerente de tesouraria do Travelex Bank, Felipe Pellegrini.

A falta de articulação do governo, por outro lado, também tem sido motivo de agitação nas mesas de operação e percepção dos investidores nos últimos dias. Na semana passada, quando todos os estados brasileiros e o Distrito Federal tiveram atos contra o bloqueio, feito pelo Ministério da Educação (MEC), de 24,84% dos gastos não obrigatórios dos orçamentos das instituições federais, o dólar comercial chegou a flertar com os R$ 4, fechando em R$ 3,9967 na venda no dia das manifestações.

“É importante lembrar, porém, que um dólar está muito atrelado ao outro e, em média, o câmbio turismo chega a ser entre 3,5% e 4% mais elevado do que o comercial. Ambos têm a função de fluxo de moeda no País, mas todas as expectativas da economia internacional e doméstica impactam essas cotações”, comenta a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto. A projeção da especialista é de que o dólar comercial encerre dezembro aos R$ 3,75.

De acordo com o responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Silva, porém, apesar de a aprovação das reformas estruturais necessárias ser a “menina dos olhos”, a falta de articulação do governo tem potencial para determinar a pressão do dólar sobre o real.

“A visão do investidor estrangeiro é de que o governo brasileiro, na prática, ainda não sabe ter pulso. A sensação é de que tudo está meio atabalhoado e não há firmeza nas decisões tomadas. Isso tudo acaba influenciando nas cotações, que dependem também do cenário internacional tanto da China e EUA, como dos mercados dos BRICS [das moedas dos principais países emergentes]”, afirma.

Sazonalidade relativa

Da outra ponta, os especialistas reiteram também a possibilidade de uma sazonalidade natural na cotação do dólar turismo pela proximidade das férias de meio do ano. “É natural que o câmbio turismo fique um pouco mais pressionado nas férias de verão do hemisfério norte”, diz Pasianotto.

Para Vanei Silva, porém, essa sazonalidade é relativa. “Se a moeda norte-americana está muito alta, o volume de viagens para o exterior diminui bastante e, assim, não há demanda o suficiente por dólar turismo para fazer com que ele suba sazonalmente”, completa o profissional de câmbio.