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O crédito coletivo (peer-to-peer ou P2P) poderá oferecer taxas de juros até 70% menores em 2019. A expectativa é de que a viabilização da nova regulamentação e a volta da economia traga um crescimento até cinco vezes maior na carteira dessas fintechs.

O custo menor dos empréstimos viria tanto da maior competição no setor com a entrada de novos players como pela resolução n° 4.656, trazida em abril de 2018 pelo Banco Central (BC) e que permite que as fintechs operem na modalidade P2P sem a necessidade de uma instituição parceira.

“Antes, o custo efetivo total da operação de crédito para o tomador contava não só com os juros da operação, mas com as taxas cobradas pelas fintechs e pela instituição financeira parceira e também com o IOF [Imposto sobre Operações Financeiras]. Sem a cobrança da instituição, o reflexo é direto no montante pago por quem toma recursos”, explica o CEO da IOUU, Bruno Sayão.

De acordo com o CEO da Nexoos, Daniel Gomes, a modalidade, que já acabava sendo mais atrativa para as pequenas e médias empresas pelo menor custo da operação ante a tecnologia das fintechs, deve ganhar apelo ainda maior.

“Esse é um público completamente mal atendido pelo mercado e que, antes mesmo da crise, já tinha um difícil acesso ao crédito. Com a análise de risco, o menor gasto interno trazido pela tecnologia e uma inadimplência em linha com o sistema financeiro, algumas operações chegam a ser até 70% mais baratas do que aquelas oferecidas pelos bancos tradicionais”, comenta. Do lado dos investidores, por sua vez, a expectativa é que com a taxa básica de juros (Selic) no menor patamar histórico (de 6,5% ao ano), a demanda por ativos de maior risco também cresça neste ano.

“Os investidores começam a perceber que as aplicações em renda fixa já não rendem a mesma coisa e que a poupança, com rentabilidade de 0,37% ao mês, não compensa. Nessa linha, as operações relacionadas a P2P acabam pagando até duas vezes mais do que nas instituições tradicionais”, afirma o CEO da Kavod Lending, Fabio Neufeld. O investimento na modalidade rende uma média de 1,4% ao mês – o equivalente a cerca de 18% ao ano.

Neufeld pondera também que parte do atrativo para os alocadores é que o risco, mesmo grande, não tem a proporcionalidade da rentabilidade maior. “Isso também deve atrair mais investidores interessados”, acrescenta Neufeld.Em relação ao crescimento no volume de empréstimos, as três fintechs entrevistadas projetam, para 2019, uma carteira de crédito até cinco vezes maior do que o visto em 2018.

A Kavod, por exemplo, que alcançou os R$ 5 milhões em 2018, prevê R$ 30 milhões em crédito neste ano. Já as projeções da IOUU é de que esse volume passe dos R$ 2 milhões para R$ 12 milhões na mesma comparação. Na Nexoos, a previsão é que passe de R$ 100 milhões para R$ 400 milhões, além da expectativa de que a carteira total chegue a R$ 1 bilhão ao longo de 2020.

Balança de prós e contras

Ao mesmo tempo em que a regulação por parte do BC traz expectativa de maior concorrência e aumento na demanda, a autoridade monetária ainda não aprovou nenhuma fintech para operar na modalidade desde que a resolução entrou em vigor. Os rumores do mercado é de que cerca de 11 iniciativas financeiras já estejam cadastradas para avaliação.

Segundo Neufeld, o baixo número de fintechs cadastradas vem pelas altas exigências do Banco Central. “Temos alguns estudos, mas não é financeiramente viável. Mesmo que não haja nenhuma taxa cobrada pelo BC, o custo operacional chega a quase R$ 1 milhão para se manter vivo como SEP [Sociedade de Empréstimos entre Pessoas, parte regulamentada pelo BC na resolução nº 4.656]”, afirma.

Entre as exigências, é preciso ter R$ 1 milhão de capital em liquidez e cumprir normas de compliance e tributações específicas. “A movimentação é super positiva, mas não é um processo simples. Temos avançado, principalmente com a possibilidade de receber capital estrangeiro, mas é uma balança entre vantagens e custos”, conclui Sayão.