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A crise da Argentina já afeta as exportações brasileiras e vai desacelerar nossas vendas internacionais com o país nos próximos meses. Ainda há expectativa de câmbio sensível à volatilidade de emergentes e maior dificuldade do Brasil em atrair capital estrangeiro.

Desde maio até agosto, por exemplo – quando o país vizinho recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em busca de um empréstimo para tentar acertar as contas públicas –, dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) apontam que as vendas brasileiras para a Argentina caíram 11,7% ante igual período de 2017, de R$ 6,233 bilhões para R$ 5,501 bilhões.

Segundo o operador financeiro da WM Manhattan Rafael Mendes, a proximidade com a Argentina já tem o arrefecimento como impacto na balança comercial.

“A nossa relação com a Argentina é muito próxima, principalmente em questão de commodities, produtos agrícolas, gado e veículos. E já sentimos esses reflexos, um exemplo disso é a Anfavea”, disse o executivo, referindo-se ao reajuste para baixo das projeções do ano para a produção e a exportação de veículos novos – de 13,2% para 11,9% – por parte da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

De acordo com o economista-chefe do Grupo Confidence, Robério Costa, mesmo que o “contágio” da situação financeira argentina também venha pelo lado financeiro, os impactos na atividade econômica brasileira em um momento de “saída da recessão” podem acabar sendo mais fortes.

“Essa relação comercial é diária e presente e o volume de transações devem ser menores por conta do ajuste fiscal que Macri [presidente da Argentina] está sendo forçado a fazer agora”, comenta.

Ele avalia que, ainda que haja uma maior intenção de venda de produtos argentinos para o Brasil, o atual cenário nacional é um impeditivo.

“Não podemos esquecer que estamos em meio às incertezas políticas e também tendo que enfrentar ajustes fiscais. A relação da Argentina conosco fica limitada pela nossa situação econômica também”, pondera o economista-chefe.

Da outra ponta, no entanto, o volume de importações feitas pelo Brasil no mesmo período citado anteriormente (de maio a agosto) avançou 19,5% na comparação com igual período do ano passado, saindo de R$ 3,307 bilhões para um total de R$ 3,953 bilhões.

“É uma política diferente da qual o Brasil pode se beneficiar, comprando produtos mais baratos e tentando ter ganho de produtividade nesse processo”, explica a professor de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Juliana Inhasz.

Ela contrapõe que é um “movimento contido” e que “não melhora a trajetória de crescimento do Brasil”.

“Além disso, não temos capacidade de aumentar o volume de importações. O que pode ser feito é trocar de fornecedor e focar um pouco mais na Argentina, mas não há espaço a mais”, completa.

‘Prazo de validade’

Da ponta cambial, o peso argentino atingiu, no mês passado, uma desvalorização recorde (-15,6%) e foi negociado a 40 por dólar. Ao mesmo tempo, o Banco Central do país também elevou as taxas de juros de 45% para 60% ao ano.

“O grande problema é que, somando as crises da Turquia e da Argentina, o câmbio nos países emergentes acaba se machucando”, diz a economista da Coface, Patrícia Krause.

“Isso não só muda a percepção de risco dos investidores estrangeiros, que migram o capital, mas também diminui a confiança empresarial doméstica”, acrescenta Mendes, do Grupo Confidence.

Para Inhasz, outro ponto agravado pela situação da Argentina é o Mercosul, que se mostra cada vez mais um “bloco jogado às traças”.

Ela reitera também que, do ponto de vista Brasil, uma soma de acontecimentos precisa ser considerada. “Estamos longe de ter o câmbio de novo em R$ 3,30 e dependemos muito do resultado eleitoral. Mas a crise na Argentina tem prazo de validade e a volatilidade também deve arrefecer um pouco até o fim do ano. A moeda termina 2018 entre R$ 3,70 e R$ 3,90, mas com menos oscilações”, conclui.