Do que é feito o diesel e por que ele está tão caro

Entenda como o diesel é produzido a partir do petróleo
Escrito por Anny Malagolini
Publicado em
Do que é feito o diesel
Foto: Getty images

O diesel está entre os combustíveis mais usados no Brasil, principalmente no transporte de cargas e no agronegócio. Mas afinal, do que ele é feito, e por que seu preço sobe tanto em determinados momentos? A resposta passa por uma cadeia complexa que começa no petróleo bruto e termina nas bombas dos postos, passando por fatores internacionais, decisões do governo e custos internos.

Como o óleo diesel é produzido?

O diesel é um derivado direto do petróleo bruto, uma substância natural formada ao longo de milhões de anos a partir da decomposição de matéria orgânica. Esse líquido escuro e viscoso, extraído do subsolo ou do fundo do mar, não pode ser usado diretamente. Ele precisa passar por um processo industrial chamado refino, que separa seus componentes e dá origem a diversos produtos, como gasolina, querosene, gás de cozinha e o próprio diesel.

Para entender melhor, é importante olhar para a composição do petróleo em nível molecular. Ele é formado por hidrocarbonetos, que são cadeias de átomos de carbono e hidrogênio. Essas cadeias variam de tamanho: algumas são curtas e leves, outras longas e pesadas. Essa diferença é essencial para o processo de refino, pois cada tipo de cadeia tem um ponto de ebulição diferente.

É justamente essa característica que permite a separação dos derivados. O processo começa com o aquecimento do petróleo bruto a temperaturas superiores a 400 °C. Nessa etapa, o líquido se transforma em vapor e é direcionado para uma torre de destilação fracionada — uma estrutura alta onde ocorre a separação dos componentes.

Como o diesel é produzido nas refinarias

Dentro da torre, o vapor sobe e vai esfriando gradualmente. À medida que a temperatura diminui, os diferentes tipos de hidrocarbonetos começam a se condensar, voltando ao estado líquido em diferentes níveis da torre. Os compostos mais pesados, com cadeias longas, se condensam primeiro, ainda nas partes mais quentes, dando origem a produtos como asfalto e betume.

Conforme o vapor continua subindo e esfriando, surgem outros derivados. O óleo combustível aparece em temperaturas abaixo de 370 °C. Já o diesel é formado em uma faixa intermediária, entre aproximadamente 200 °C e 350 °C. Nessa etapa, as moléculas ideais para o diesel se condensam e são coletadas em bandejas específicas da torre, sendo então direcionadas para tanques de armazenamento.

Esse diesel ainda pode passar por tratamentos adicionais para melhorar sua qualidade, reduzir impurezas e atender às normas ambientais. No Brasil, por exemplo, existe o diesel S-10, que possui baixo teor de enxofre e é menos poluente.

Embora esse seja o método tradicional, existem outras formas de produzir diesel. Uma delas é o chamado diesel sintético, que pode ser obtido a partir de gás natural ou biomassa. Outra alternativa é o biodiesel, produzido a partir de óleos vegetais ou gorduras animais.

No Brasil, há a obrigatoriedade de mistura de biodiesel ao diesel fóssil, o que influencia diretamente a composição final do combustível vendido nos postos.

Por que o preço do diesel sobe no Brasil?

Nos últimos meses, o diesel tem registrado aumentos significativos no Brasil. Parte dessa alta está diretamente ligada ao cenário internacional. O petróleo é uma commodity global, ou seja, seu preço é definido no mercado internacional. Quando há crises geopolíticas, como a recente guerra envolvendo o Irã e países vizinhos, o impacto é quase imediato.

O conflito provocou o bloqueio parcial de rotas marítimas importantes para o transporte de petróleo, reduzindo a oferta global e elevando os preços do barril. Como o Brasil ainda depende de importações de derivados, esse aumento chega rapidamente ao mercado interno.

Esse movimento já aparece nos números. De acordo com o Índice de Preços Ticket Log (IPTL), o diesel comum teve alta de 6,10% no início de março, passando de R$ 6,23 para R$ 6,61 por litro. Já o diesel S-10 subiu ainda mais, com avanço de 7,72%, chegando a R$ 6,70 por litro na média nacional.

As variações regionais também chamam atenção. O Nordeste registrou o maior preço médio do diesel comum, com R$ 7,22 por litro, enquanto o Norte lidera no diesel S-10, com média de R$ 7. Esses números refletem custos logísticos, distância das refinarias e dependência de importações.

O que o governo está fazendo para conter a alta?

Além do cenário externo, a política interna também tem peso relevante. Para tentar conter a alta e evitar impactos maiores na economia — especialmente no preço dos alimentos, que dependem do transporte rodoviário, o governo federal editou a Medida Provisória 1340/26.

A proposta prevê uma combinação de corte de impostos e subsídios. Segundo o Ministério da Fazenda, a redução de tributos pode diminuir o preço do diesel em R$ 0,32 por litro ainda na refinaria. Já a subvenção à produção e importação pode gerar mais R$ 0,32 de redução. No total, o impacto estimado é de R$ 0,64 por litro.

As medidas são temporárias e válidas até 31 de dezembro de 2026. Além disso, o governo zerou as alíquotas de PIS e Cofins sobre a importação e comercialização do diesel, tentando aliviar ainda mais o custo final.

Para compensar a perda de arrecadação — estimada em até R$ 30 bilhões — foi criada uma taxação sobre exportações. A nova regra estabelece uma alíquota de 12% sobre a exportação de petróleo bruto e de 50% sobre a exportação de diesel.

A ideia é dupla: equilibrar as contas públicas e incentivar que parte da produção fique no mercado interno, reduzindo a dependência de importações em momentos de crise internacional.

Outro ponto importante é a fiscalização. A medida provisória também endurece as punições para práticas abusivas no setor de combustíveis. Empresas que elevarem preços de forma injustificada ou se recusarem a fornecer combustível podem sofrer multas que variam de R$ 50 mil a R$ 500 milhões.

O que influencia o preço final na bomba?

Mesmo com essas ações, o impacto no bolso do consumidor nem sempre é imediato. Isso porque o preço final do diesel inclui outros fatores, como custos de transporte, margens de distribuição e revenda, além de tributos estaduais.

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a logística pesa bastante. Regiões mais afastadas dos centros de refino tendem a ter preços mais altos, como é o caso do Norte e do Nordeste.

Diante desse cenário, especialistas e órgãos reguladores afirmam que seguem monitorando o abastecimento para evitar desabastecimento e distorções no mercado. Para o consumidor, a principal recomendação é pesquisar preços antes de abastecer, já que pode haver variações significativas entre postos.

No fim das contas, o diesel é muito mais do que um simples combustível. Ele é resultado de um processo industrial sofisticado e está diretamente ligado à dinâmica econômica global. Seu preço reflete desde a composição química do petróleo até decisões políticas e conflitos internacionais — um conjunto de fatores que explica por que qualquer mudança no cenário mundial pode ser sentida rapidamente nas bombas brasileiras.

Veja também:

Petróleo Brent ultrapassa os US$ 90

Anny Malagolini é jornalista com ampla experiência em produção de conteúdo digital e SEO. Atuou em redações como Campo Grande News, Correio do Estado e Midiamax, faz a estratégia editorial do portal DCI, com foco em audiência orgânica e conteúdo de autoridade.