Publicado em

O dólar emendou o terceiro pregão seguido de alta na sessão da última sexta-feira, e encerrou a semana passada com valorização de 3,93%, maior variação semanal desde o fim de agosto de 2018.

Mais uma vez, a onda de fortalecimento global da moeda americana, em meio à disputa comercial sino-americana, foi amplificada no mercado local pelas tensões no campo político. Em alta desde o início dos negócios, a moeda americana superou R$ 4,10 e correu até máxima de R$ 4,1127 no meio da tarde com um movimento de busca por proteção e zeragem de posições vendidas em dólar. Com um leve alívio na reta final dos negócios, o dólar fechou em alta de 1,60%, a R$ 4,1002 - maior valor de fechamento desde 19 de setembro de 2018 (R$ 4,1308).

Operadores não citaram um fato específico para a nova rodada de depreciação do real. Nas mesas de operações, fala-se em uma mudança de expectativas em relação ao governo de Jair Bolsonaro.

Entre os fatores que preocupam estão a postura belicosa do presidente em relação ao Congresso, a magnitude dos protestos de rua e o risco de que as investigações sobre os negócios do senador Flávio Bolsonaro respingue no presidente jogam dúvidas sobre a governabilidade.

Além disso, a safra de indicadores econômicos fracos em meio à tramitação tortuosa da reforma da Previdência deprimiram as expectativas dos agentes. Segundo operadores, o voto de confiança ao governo foi substituído pela descrença, o que leva a um ajuste dos preços dos ativos.

"Quando as expectativas mudam, os preços mudam. O dólar ter ido rapidamente a R$ 4,10 mostra que houve uma deterioração muito grande da confiança", diz Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, que vê movimentos técnicos e uma zeragem de posições vendidas como propulsor da arrancada súbita da moeda americana.

Em meio ao aumento da temperatura política, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou passar uma mensagem de otimismo. Em evento no Rio, Guedes disse que confia na liderança do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para aprovar a reforma da Previdência. O ministro voltou a defender o regime de capitalização e a meta de economia de pelo menos R$ 1 trilhão em dez anos.

Para Guedes, se a reforma for aprovada nos próximos dois meses, a "expectativa de crescimento" será outra. Diferentemente do observado nos últimos meses, desta vez as palavras de Guedes não conseguiram animar os investidores.Maia, por sua vez, reiterou seu compromisso com a reforma da Previdência, mas alertou que é preciso "pensar alguma políticas de curto prazo" para estimular a economia.

No exterior, as tensões comerciais entre China e Estados Unidos aumentam a aversão ao risco e contribuem para o fortalecimento global do dólar. O índice DXY - que mede a variação da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes - avançou 0,17%. O dólar também avançou em relação a moedas emergentes, mas em magnitude bem menor do que o real.

Oscilação no Ibovespa

O Ibovespa ficou praticamente estável (-0,04%), aos 89.992,73 pontos. Banco do Brasil ON caiu 1,73%, Petrobras PN (-2,33%) e Eletrobras ON (-1,35%). Assim, Ibovespa renovou o piso do ano e encerrou com perda de 4,52% na semana. /Estadão Conteúdo