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Apesar da euforia do mercado com a economia doméstica, as empresas exportadoras têm sofrido com a queda de 5% do dólar, acumulada no último mês. A influência também vem do exterior e, para especialistas, agora “não é um momento para especulação”.

O dólar Ptax de ontem, mostra um recuo de 5% em relação ao observado no dia 07 de dezembro, de R$ 3,8964 para um total de R$ 3,7062. Nesse cenário, mesmo as reações otimistas dos investidores quanto às falas do presidente do Federal Reserve nos Estados Unidos, Jerome Powell, na última sexta-feira, não foram o suficiente para valorizar o dólar ante o real.

O recuo da moeda, assim, também “mingua” as ações das exportadoras na Bolsa. A cotação desses papéis no pregão de ontem, por exemplo, estão dois dígitos menores do que o valor visto quando o dólar Ptax saltou para os R$ 4 pela primeira vez em 2018, no dia 22 de agosto.

A maior baixa ocorreu no papel Suzano ON, que registraram um recuo de 25,4% nessa base de comparação, de R$ 48,22 para R$ 35,98. Em seguida vieram as ações da Fibria ON, que caiu 16,1%, de R$ 79,00 para R$ 66,30 e as cotações da Klabin UNT que retraíram 14,8%, de R$ 19,95 para um total de R$ 17,00.

De acordo com o superintendente de câmbio da Correparti Corretora, Ricardo Gomes da Silva, a menos que não se concretize a desaceleração da economia e, consequentemente, da moeda estadunidense projetada, as receitas e os papéis das exportadoras tendem a “minguar” nos próximos meses deste ano.

“O dólar não reagiu pelo temor de uma desaceleração da economia global e por causa dos reflexos da economia e da política econômica dos EUA. E como a ação do exportador está atrelado à conjuntura internacional, é natural que eles percam mercado nesse cenário”, explicou o executivo.

Já para o presidente da Easynvest, Marcio Cardoso, “a moeda estava esperada para operar no atual patamar” e, assim, as empresas já estavam “preparadas” e usando instrumentos de proteção para fazer com que os níveis de seus preços fiquem mais estáveis em períodos como esse.

As projeções do Focus, do Banco Central (BC) de agosto, por exemplo, já previam um dólar para R$ 3,80 em 2018. O prognóstico dos economistas continua nesse nível para este ano, tendo em vista o relatório de ontem. A expectativa é de que tanto em 2019 quanto em 2020 a moeda norte-americana fique em torno de R$ 3,80.

“Estamos falando de grandes empresas de capital aberto e, caso haja alguma repercussão dessa queda do dólar, esses números só serão refletidos nas companhias em abril. Os contratos ainda trabalham com o preço médio de R$ 3,80 e o negócio dessas empresas não é operar com exposição ao risco”, acrescentou Cardoso.

Dentre os demais investimentos cotados em dólar, os especialistas ponderam que a grande maioria já estava “hedgeada” (protegida) das variações da moeda que aconteceram nos últimos meses.

“Os fundos cambiais obviamente sentem a variação. Mas eles já estavam protegidos para essa queda e, inclusive, estão preparados para recuos ainda maiores”, diz o gerente de câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante.

Ele reitera que o mesmo acontece com os investimentos em derivativos. “A alta do dólar em 2018 foi bastante especulativa e a maioria já estava preparada para quando a retração viesse”, complementa.

Recursos estrangeiros

Em termos de cenário doméstico, por outro lado, os especialistas destacam a necessidade de andamento das reformas e a influência positiva que a concretização das medidas do novo governo traria para os investimentos no País.

Segundo o diretor de estratégia e inovação do Meu Câmbio, Mathias Fischer, ainda há “muita expectativa em relação ao governo Bolsonaro” e bastante crédito para o que pode acontecer no exterior. “É importante observar as taxas mínimas e máximas das projeções para o dólar, que são afetadas pela leitura que o investidor tem do País”, afirma.

“A concretização dessas perspectivas sobre a economia no médio prazo também deve trazer um volume maior de recursos estrangeiros para o Brasil. Esse cenário também afetaria a cotação do dólar”, conclui Cardoso, da Easynvest.