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Os empréstimos para pessoas jurídicas ainda estão 8% abaixo dos níveis registrados em 2013, antes da crise. Com o atual ambiente econômico aquém das expectativas e sem confiança para o futuro, a projeção de melhora do crédito corporativo fica para 2020.

Os últimos dados do Banco Central (BC) divulgados ontem apontam que o total de concessões para empresas atingiu R$ 138,3 bilhões em abril. O volume, apesar de representar um avanço de 3% em comparação a igual mês de 2018 (R$ 134,3 bilhões) ainda corresponde a uma queda de R$ 12 bilhões em relação aos patamares de abril de 2013 e abril de 2014, ambos com R$ 150,3 bilhões.

O movimento contrário acontece nos spreads dos empréstimos corporativos, que registraram um aumento de 2 pontos percentuais (p.p.) em abril deste ano contra igual mês de 2013, antes da crise, de 7,4 p.p. para 9,4 p.p.. Na mesma esteira, os juros para pessoas jurídicas subiram 1,8 p.p. na mesma comparação, de 14% para 15,8%.

“Estamos diante de um marasmo muito grande, esperando pelas reformas estruturais. Se a Previdência conseguir passar no segundo semestre poderemos ver alguma coisa no final do ano, mas a melhora efetiva fica apenas para o ano que vem. Mas, por enquanto, é um cenário negativo, onde o setor produtivo não toma risco e não investe”, afirma o economista e sócio fundador da Juros Baixos, Lereno Soares.

Da mesma forma, apesar da melhora vista nos indicadores em relação ao ano passado, as expectativas frustradas no início deste ano adiaram ainda mais uma retomada mais forte do crédito. “Essa redução na previsão da atividade econômica mostra que estamos em uma trilha mais fraca e é natural que as empresas, que já vinham de um cenário mais difícil, fiquem ainda mais comedidas. Mas a ideia é que isso comece a se normalizar no segundo semestre”, afirma o economista da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas.

No sentido do custo desses empréstimos, a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, comenta que mesmo que as taxas já tenham reduzido em comparação aos últimos meses, os juros continuam muito altos para servirem como incentivo ao crédito corporativo.

“É um ambiente difícil para o empresário conseguir se financiar com o setor bancário. Em um ranking feito pela IMD [escola suíça], o Brasil aparece entre os cinco países com o spread mais alto, perdendo apenas para Croácia, Argentina, Mongólia e Venezuela. E esse custo de crédito mesmo ante uma inadimplência mais baixa com certeza dificulta a retomada”, diz a especialista.

Já segundo a economista da Coface para a América Latina, Patricia Krause, mesmo que essa redução possa demorar a acontecer, a tendência é positiva. “O crédito de mais longo prazo só deve vir em 2020 porque investimento leva tempo, mas vemos uma preocupação frequente do BC em aumentar a concorrência e pressionar as taxas para baixo. É uma sinalização de que pode melhorar”, avalia Krause, da Coface.

Agenda BC#

Também divulgada ontem, a nova agenda BC# traz aspectos de melhorar o custo do crédito na ponta tomadora, aumentar a concorrência e modernizar as regulações referentes à política monetária brasileira.

“A retomada desse mercado depende do timing das reformas macro e microeconômicas acontecerem e o impacto é direto. Além disso, tem muito espaço para uma queda de juros, já que grande parte desse preço está relacionada ao custo operacional e à ineficiência de alguns credores”, analisa o vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Creditas, Fabio Zveibil.

Ele também destaca que os esforços do BC têm papel fundamental na retomada do mercado. “Vemos essas medidas com bons olhos e acreditamos que ainda que o processo seja longo, ele é positivo e precisa ser feito”, conclui.