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As trocas comerciais entre o Brasil e o Reino Unido aumentaram 5% entre janeiro e outubro, a US$ 4,4 bilhões, em relação a igual período de 2017, puxada por uma elevação de 9,7% das exportações brasileiras, para US$ 2,4 bilhões.

As nossas vendas para a região (formada pela Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales) alcançaram certa estabilidade a partir de 2016, depois de um período de quedas anuais após 2011.

No entanto, o futuro dos negócios bilaterais é incerto, para o coordenador do Observatório de Multinacionais da ESPM, Diego Coelho.

Se, de um lado, começa a haver uma mudança no perfil da política externa brasileira, de outro, identifica-se uma série de pontos “nebulosos” no processo de separação do Reino Unido da União Europeia (UE), movimento conhecido como Brexit.

“A agenda de investimentos cruzados entre Brasil e Reino Unido existe e chegou a ser intensificada nos últimos meses”, diz Coelho “Porém, há um cenário incerto para o próximo ano. O empresário que quer investir no Reino Unido se pergunta: esses países estarão ou não na União Europeia em 2019? Haverá uma área de livre comércio ou uma união aduaneira [entre UE e Reino Unido]? Haverá restrição à circulação de pessoas? Barreiras tarifárias? Se eu não sei essas respostas, como que eu vou planejar investimentos e comércio com a região?”, questiona o especialista da ESPM.

Na última quinta-feira (15), quatro ministros britânicos chegaram a pedir demissão do governo por desacordo com os termos do Brexit, negociados entre a primeira ministra britânica, Theresa May, e membros da UE. Entre os que renunciaram, está o secretário para o Brexit, Dominic Raab, que afirmou que as concessões feitas ao bloco europeu não honram o referendo do Brexit, feito em junho de 2016.

Um dos pontos do acordo estipula que a UE e os países britânicos permaneçam em uma união aduaneira até 2020. O Reino Unido deverá deixar o bloco dia 20 de março de 2019.

Para Coelho, há diversos cenários possíveis para os próximos meses: o acordo de saída pode ser renegociado; o Reino Unido pode sair da UE sem acordo; pode haver novo referendo do Brexit ou até mesmo uma nova eleição geral.

O conselheiro da Câmara Britânica de Comércio e Indústria no Brasil (Britcham), Richard Taylor, reforça que o processo do Brexit pode resultar em ambientes “muito diversos para se fazer negócios”.

Porém, ele afirma que o foco da instituição continuará sendo o de facilitar os investimentos, independente do cenário.

Segundo Taylor, há espaço para elevar os negócios com o Brasil, caso o País pratique uma política comercial mais aberta e simplifique o ambiente de negócios. “O processo do Brexit já forneceu mais incentivo para o Reino Unido se concentrar em novos mercados. Durante o último ano, houve reuniões conjuntas entre o Brasil e o Reino Unido, por exemplo, do UK-Brazil Joint Economic and Trade Committee (JETCO), para garantir a continuidade de importantes acordos quando o Reino Unido sair da UE”, diz.

Cerca de 73% das exportações brasileiras para o Reino Unido são de produtos manufaturados e semimanufaturados, com destaque para o ouro. Por outro lado, 97% do que o Brasil compra dos países britânicos são produtos industrializados, sendo que a maioria são de medicamentos para humanos e animais, além de automóveis de passageiros.

Política externa

Para Coelho, a mudança em curso no perfil da política externa brasileira também é outro ponto de incerteza. Na semana passada, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) indicou o diplomata Ernesto Henrique Fraga Araújo para o cargo de ministro das Relações Exteriores (Itamaraty).

O professor avalia que as ideias de Araújo não se alinham com a postura histórica de atuação do Itamaraty que, apesar dos diversos enfoques, sempre foi mais conciliadora, priorizando o diálogo.

Na última sexta, as empresas do Reino Unido se alinharam para ajudar Theresa May a vender sua proposta de acordo para o Brexit, mas continuaram se planejando para uma saída da UE sem um acordo.

“Este acordo é apenas um esboço”, disse Warren East, presidente-executivo da Rolls Royce. “Vamos continuar com nossos planos de contingência e isso inclui estoques reguladores para que tenhamos capacidade logística que precisamos para continuar negócios.”