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Uma nova onda de aversão ao risco varreu os mercados de ações pelo mundo ontem e o Ibovespa não ficou imune. Os sinais de agravamento da guerra comercial entre EUA e China foram determinantes. O índice fechou em queda de 2,69%, aos 91.726,54 pontos.

Desde o último dia 6 de maio, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que elevaria de 10% para 25% a tarifa de importação sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses, o Ibovespa já perdeu 4,46% do seu valor nominal e 5,43% em moeda estrangeira. O agravante ontem foi a retaliação anunciada pela China, de que vai impor novas tarifas sobre US$ 60 bilhões em produtos americanos a partir de junho.

“O recrudescimento da retórica míngua a esperança de um acordo no curto prazo e reacende os temores quanto a uma desaceleração acentuada da economia global”, disse Sandra Peres, analista-chefe da Coinvalores.

Segundo Alvaro Bandeira, economista-chefe da Modal Mais, a dúvida entre os investidores é se Trump está apenas sendo o “fanfarrão” de sempre – utilizando as sobretaxações como forma de pressionar a China –, ou se ele levará a guerra comercial à frente. “Se ele voltar atrás, os mercados se recuperam. Mas se levar à frente, boa parte do estrago já terá sido antecipado”, afirma.

Das 66 ações que compõem a carteira teórica do Ibovespa, somente 2 fecharam em alta: Via Varejo ON (+2,60%) e BRF ON (+0,33%). Entre as quedas mais expressivas estiveram CVC ON (-7,68%) e Gol PN (-7,02%), por conta de incertezas com o futuro da Avianca. As ações da Petrobras caíram 2,86% (ON) e 2,92% (PN), alinhadas à queda do petróleo no mercado externo. Vale ON perdeu 4,10%, refletindo os temores da guerra comercial. Entre os bancos, destaque para Banco do Brasil ON (-3,63%) e Bradesco PN (-2,43%).

Mercado cambial

O real foi engolfado na sessão de ontem pela onda de aversão ao risco que tomou conta dos mercados internacionais em meio agravamento das tensões comerciais sino-americanas. Com o anúncio de elevação de tarifas por parte da China, investidores correram para a moeda norte-americana. Ao final do pregão, o dólar fechou a R$ 3,9795, em alta de 0,87%.

Em maio, a divisa já acumula valorização de 1,49%. O giro no mercado à vista foi reduzido. Houve um volume levemente superior à média no mercado futuro, que girava US$ 21 bilhões. Já o dólar para junho era negociado a R$ 3,9890, em alta de 0,78%.

Operadores notam que o mercado opera basicamente entre um piso de R$ 3,90 e um teto de R$ 4,00. As dúvida sobre a tramitação da reforma da Previdência no Congresso Nacional e as tensões externas impõem um viés “comprado” aos agentes. “Não há motivo para apostar no real no curto prazo. Mas também ninguém sustenta um dólar acima de R$ 4”, afirma Marcos Trabbold, diretor da B&T Corretora.

O temor de uma escalada protecionista na guerra comercial também manteve a ponta longa da curva de juros mais inclinada na tarde de ontem, embora com alta limitada pelo pessimismo sobre a atividade no Brasil. As taxas curtas fecharam de lado. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou a sessão regular em 6,92%, de 6,881% no ajuste anterior e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 7,992% para 8,05%. A taxa do DI para janeiro de 2025 encerrou em 8,60%, de 8,532%. /Estadão Conteúdo