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A indústria de fundos encerrou o mês de agosto com captação líquida de R$ 4,5 bilhões, o menor volume desde abril (quando foi negativo em R$ 11,8 bilhões). A queda foi puxada pelas carteiras de renda fixa, cujos resgates somaram R$ 9,2 bilhões no período.

Segundo os últimos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) os aportes de agosto foram 64,6% inferiores ao registrado no mesmo mês de 2018 (R$ 12,7 bilhões). Em relação a julho (R$ 25,2 bilhões) a queda foi de 82,1%.

Os principais influenciadores para a queda observada no mês foram os fundos de renda fixa e de direitos creditórios (FIDCs), que juntos somaram mais de R$ 14,9 bilhões em resgates.

De acordo com o gestor de fundos da Guide Investimentos Leonardo Uram, apesar de no caso dos FIDCs ter sido uma questão mais pontual, com resgates advindos de um único fundo, as carteiras de renda fixa têm demonstrado uma tendência maior de queda na indústria, ante o atual cenário de juros no País. “É difícil bater o martelo no que foi a causa específica, mas existem alguns efeitos que podemos comentar”, explicou o especialista.

“Primeiro, há uma maior busca dos investidores por ativos mais rentáveis. Segundo, muitos fundos de renda fixa fecharam para captação. E terceiro, o mês passado foi um pouco negativo para o mercado de juros especificamente, com os DIs, juros futuros e NTN-Bs com performance negativa”, enumerou.

Na somatória dos oito primeiros meses do ano, por outro lado, a captação líquida da indústria acumulou R$ 172,4 bilhões em 2019, volume mais do que o dobro (153%) superior ao visto em igual intervalo de 2018 (R$ 68,2 bilhões).

Segundo o economista e CEO da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti, apesar deste ano ter trazido bastante incerteza aos investidores, tanto em relação ao cenário político e econômico nacional quanto no internacional, a indústria de fundos começa a demonstrar um “humor mais orientado a risco e expectativas positivas” em relação ao futuro.

“Tivemos um agosto repleto de tempestades e grande parte dos investidores preferiu esperar um pouco para tomar alguma decisão. Mas já sentimos certa confiança voltar, principalmente nos ativos com mais risco, como ações e multimercados”, comenta o executivo.

Ele reforça ainda que parte da migração de renda fixa também pode ser sentida nos fundos imobiliários (FIIs).

“Essas carteiras tiveram uma rentabilidade recorde de ofertas e follow ons e houve uma forte migração dos investidores mais conservadores, já que é uma classe com boa performance nos 12 meses”, disse.

As últimas informações da B3 apontam que já em julho, o patrimônio líquido dos FIIs somava R$ 62,4 bilhões e 390,7 mil investidores, os maiores valores vistos neste ano.

Ainda na linha mais conservadora, a poupança captou R$ 1,316 bilhão em agosto, queda de 18% em relação ao observado em julho (R$ 1,605 bilhão).

Capital estrangeiro

Ao mesmo tempo em que as previsões estão mais otimistas em relação ao cenário político e econômico do País, porém, o fluxo de capital estrangeiro continua restrito e cauteloso.

Os últimos dados da B3 demonstram que em setembro até o dia 4, já houve retirada de R$ 2,1 bilhões em recursos estrangeiros na bolsa. No ano, porém, o saldo acumulado é positivo em R$ 1,7 bilhão, grande parte devido ao volume que esses investidores aportaram em ofertas públicas iniciais e subsequentes de ações (IPOs e follow ons).

Para a economista do aplicativo Renda Fixa, Karina Garbes, o alocador estrangeiro ainda aguarda uma maior certeza política e econômica no País antes de aportar capital. Atualmente, 45,7% de todo o montante alocado na bolsa de valores corresponde por capital advindo de outros países.

“Enquanto não demonstrarmos uma evolução bacana, esses investidores continuarão segurando seus recursos. Tudo ainda depende de como o cenário doméstico vai evoluir”, conclui Garbes, do Renda Fixa.