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O atual quadro de inflação controlada permitirá com que a economia brasileira conviva com um juro real de 2,3% ao ano pelos próximos 12 meses, calcula o professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Simão Silber.

“Tanto a nossa taxa de juro real, como a nominal, estão registrando os seus menores níveis em 20 anos”, responde Silber, ao ser questionado sobre se há espaço para um corte maior da taxa básica de juros (Selic, taxa nominal) que, atualmente, encontra- se em 6,50% ao ano.

A taxa de juro real é a Selic menos a inflação. “Eu diria que, marginalmente, ainda é possível cortar um pouco mais a Selic. Mas não vejo ela muito mais baixa do que 6%”, ressalta o professor da USP.

“Isso porque ainda há uma incerteza muito grande sobre as pressões inflacionárias que podem ocorrer via câmbio, caso o ajuste fiscal do governo não ocorra da maneira esperada. Além disso, há uma incógnita sobre como serão tocados os programas de concessões e privatizações”, complementa Silber.

Segundo o professor da USP, são essas as principais preocupações do Banco Central (BC) atualmente e também os motivos que impedem a autoridade monetária de realizar uma redução adicional na Selic. “Enquanto não houver sinal das reformas, os investidores não irão trazer dinheiro para o Brasil”.

A professora de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Juliana Inhasz, diz, por sua vez, que apesar das nossas taxas de juros serem maiores do que a média praticada nos demais países, não há muito espaço para um corte maior na Selic. “O governo brasileiro ainda não tem capacidade fiscal de controlar a dívida pública”, argumenta Inhasz.

Para ela, se as reformas fiscais forem feitas, como as mudanças no sistema de Previdência Social aguardadas pelo mercado, o BC pode cogitar realizar cortes adicionais nos juros. Contudo, Inhasz afirma que a queda do juro básico (Selic) não resolve tudo.

“Exemplo disso é que de 2017 para 2018 tivemos uma diminuição muito forte da Selic [de 14,25% para 6,50%], mas as empresas não reagiram positivamente a isso. Ou seja, a queda dos juros não se traduziu em aumento dos investimentos. Isso está acontecendo porque as empresas não estão apostando na economia, nas políticas do governo”, reflete a professora da Fecap.

Sem elevar os investimentos, as empresas não contratam, o que mantém o nível de desemprego alto. Com muita gente fora do mercado de trabalho, a demanda segue enfraquecida, favorecendo níveis mais baixos de inflação.

Expectativas

Economistas do mercado financeiro entrevistados pelo BC estimam que a inflação oficial do Brasil, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), feche o ano de 2019 com alta de 3,85%, abaixo da meta fixada para o período (4,25%). Já para 2020, a expectativa é que IPCA termine o ano na meta (4%). Já a expectativa do mercado é de manutenção da taxa Selic é de 6,50% neste ano, e de 8% em 2020.

O professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Marcelo Ranieri, diz que o cenário de inflação controlada também se explica pela forte redução de gastos do governo, tendo em vista que o Estado sempre teve uma participação importante no estímulo econômico do País.

Ele também acredita que é preciso esperar que as reformas aconteçam para decidir se será necessário reduzir mais os juros. Contudo, Ranieri avalia que a reforma previdenciária não irá resolver todos os nossos problemas de crescimento.

Ainda há necessidade de desenvolver medidas que aumentem a competitividade da indústria e descentralizar o sistema bancário. Esta última ação seria importante para diminuir o spread bancário, bem como os juros do cartão de crédito e cheque especial, ainda muito elevados. Por fim, Silber comenta que o câmbio controlado também tem colaborado para inflação baixa.