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A esperada realização de lucros no mercado de ações chegou com mais força que o previsto e o Ibovespa por pouco não fechou abaixo da marca dos 100 mil pontos ontem. O índice terminou os negócios aos 100.092,95 pontos, com queda de 1,93%.

Depois de quatro altas consecutivas, o indicador cedeu ante uma série de fatores negativos, como a aversão ao risco no mercado externo e os novos ruídos no cenário político doméstico. O sinal negativo foi definido ainda no início dos negócios, mas o noticiário ao longo do dia acelerou gradativamente as perdas, levando o Ibovespa à mínima de 99.890,22 pontos (-2,13%), às 15h30 de ontem.

O pior momento foi reflexo da notícia de que o STF analisaria a proposta do ministro Gilmar Mendes de conceder liberdade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até a conclusão do processo em que o petista acusa o ex-juiz federal Sergio Moro de "parcialidade" no julgamento do caso do triplex do Guarujá.

"O mercado vinha com sinais muito positivos para as ações, por conta da expectativa de cortes de juros aqui e no exterior. Mas a falta de notícias novas já indicava ausência de motivos para dar continuidade ao movimento de alta. Hoje só houve motivos para incentivar incertezas. E todos negativos", disse Glauco Legat, analista da Necton Investimentos.

Segundo Legat, a questão em torno do ex-presidente Lula traz mais incerteza pois pode ser mais um empecilho no cenário político no momento em que se espera o avanço da reforma da Previdência. E a reforma da Previdência também foi motivo para estresse nos negócios. No início da tarde de ontem, o líder do PP na Câmara, Arthur Lira (AL) defendeu o adiamento da votação do relatório da reforma na comissão especial da Casa, sob o argumento de ajustes no texto, uma vez que demandas de deputados ainda não foram atendidas no relatório.

Nos Estados Unidos, também foram destaque os discursos do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e do dirigente da regional de St. Louis, James Bullard, que vieram menos "dovish" que o esperado. Bullard disse considerar "exagero" cogitar um corte de 0,50 ponto nas taxas de juros americanas.

As declarações fortaleceram o dólar ante moedas fortes e emergentes, incluindo o real, e reduziram o apetite por ativos de risco. Assim, as bolsas de Nova York consolidaram o sinal de baixa. Na análise por ações, as quedas mais expressivas ficaram com papéis de empresas ligadas a commodities e as do setor financeiro. As ações da Petrobras foram destaque de queda, com perdas de 3,03% (ON) e de 2,62% (PN). Além da realização de lucros (os papéis acumulam ganhos superiores a 7% em junho), as ações repercutiram questões corporativas, como a abertura do mercado de gás natural.

Dólar em alta

O mercado de câmbio teve uma terça-feira agitada, marcada pelo aumento da procura por dólares para envio ao exterior, preocupações com a votação da reforma da Previdência na comissão especial e com os rumos da política monetária dos Estados Unidos e até o ex-presidente Lula, que tem pedido de liberdade avaliado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), voltou ao radar das mesas de operação. Com isso, o real foi uma das moedas que mais perdeu valor no mercado mundial, junto com o rublo, da Rússia. O dólar à vista fechou em alta de 0,65%, a R$ 3,852 no balcão. /Estadão Conteúdo