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A ideia de uma moeda única entre Brasil e Argentina é considerada possível, mas só viável a partir de um sério projeto de integração financeira e econômica de longo prazo entre os dois vizinhos e outros países da América do Sul como Uruguai, Paraguai e Chile.

Na visão do economista da Nova Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira, qualquer proposta de união monetária entre Brasil e Argentina exigirá um longo tempo de maturação e a de realização de reformas fiscais e estruturantes nos dois países.

“A chance de acontecer isso nos próximos cinco anos é próxima de zero. Mas é uma proposta que seria interessante para as duas economias após uma organização das finanças públicas, da estabilidade das moedas e da inflação para ser possível um regime fiscal comum”, argumentou o economista.

Silveira exemplificou os desafios a serem equacionados pelos dois vizinhos antes dessa possibilidade. “No Brasil, ainda estamos discutindo se estados e municípios devem entrar na reforma da Previdência. Na Argentina, as famílias convivem com uma inflação elevada e pensam em dólar, reverter isso [a cultura da dolarização] leva tempo”, observa.

Na avaliação do professor de cenários econômicos e macroeconomia da Faculdade Fipecafi, Silvio Paixão, a ideia de uma moeda única na América do Sul pode parecer ousada no curto prazo, mas possui um apelo pela integração política e econômica na região. “O Peso Real pode ser a amálgama [fusão de duas ideias] que falta para uma empreitada de sucesso”, diz.

Paixão argumenta que Brasil e Argentina, tanto por razões climáticas ou geográficas, são grandes provedores de alimentos para o mundo, ambas potências do agronegócio exportador. “A América do Sul é o patinho feio do mundo, a região só carece de uma personalidade geoeconômica [para se transformar em cisne]. Mas os países têm muito a ganhar ao se unirem numa agenda comum”, aponta o professor.

Questionado sobre a experiência da Europa e as dificuldades com o euro, Paixão diferenciou da situação da América do Sul. “Quando se olha o caso da Europa, é uma política estratégica, eles tiveram conflitos bastante delicados. Foge ao nosso escopo. Não há conflitos entre Brasil e Argentina e seus parceiros [Uruguai, Paraguai, Chile], há sim, interesses comuns”, afirma Silvio Paixão.

Em contraponto, o professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Simão Silber diz que essa ideia é inviável. “Quando se cria uma moeda única numa região, o País abdica de sua soberania em política monetária e cambial. Só fica a política fiscal para resolver a crise”, alerta.

Simão Silver citou a crise assumida pela Grécia para ficar no euro. “Hoje, a Grécia possui um PIB [produto interno bruto] 25% menor do que em 2010”, lembrou o professor.

Ideia antiga

Embora a proposta do Peso Real tenha surgido na noite da última quinta-feira em Buenos Aires, no encontro entre os presidentes Jair Bolsonaro (Brasil) e Mauricio Macri (Argentina) e nas conversações entre os ministros da Fazenda argentino Nicolás Dujovne, e ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, a ideia de moeda única na região existe desde os tempos da dolarização argentina (1992-2002) e da primeira fase do Plano Real (1994-1999). E em 2008, num artigo à revista Época, o próprio Paulo Guedes havia proposto o nome “Peso Real” para deflagar “um ciclo de reformas para assegurar a convergência de políticas tributárias, trabalhistas, previdenciárias”.

Na última sexta-feira, tanto o presidente Jair Bolsonaro como o vice-presidente Hamilton Mourão disseram que a ideia de moeda única pode começar com Brasil e Argentina e depois expandir para outros países da América do Sul.