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Por força de acordos recentes, os bancos de desenvolvimento BNDES e New Development Bank (NDB, o banco dos Brics) terão papéis complementares no financiamento de projetos de longo prazo nas duas próximas décadas.

Na avaliação de especialistas consultados pelo DCI, enquanto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá se voltar para o financiamento de micro, pequenas e médias empresas, o NDB ganhará importância para viabilizar projetos de infraestrutura como geração de energia, ferrovias e portos (logística).

“O NDB terá um papel fundamental para fortalecer a coalização dos Brics [sigla para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] no comércio global. Terá muita relevância no financiamento de grandes obras, construção de ferrovias e modernização dos portos para baratear as exportações para a China, a Rússia e toda a África”, aponta o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo.

A avaliação dele está relacionada ao resultado do último encontro dos Brics realizado de 25 a 27 de julho último em Johanesburgo e que reuniu além dos representantes do bloco, outros 20 chefes de estado de países do continente africano e também o presidente da Argentina, Mauricio Macri. A partir do próximo ano, o NDB terá seu escritório nas Américas, na cidade de São Paulo.

Em outras palavras, por força de tratados internacionais, o Brasil terá que injetar mais capital no NDB para disputar recursos para projetos de interesse do bloco econômico.

Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, o NDB já aprovou 23 empréstimos num total de US$ 5,7 bilhões, sendo quatro deles para projetos no Brasil, no valor de US$ 621 milhões nas áreas de energias renováveis, infraestrutura urbana e transportes.

Em nota anterior, o BNDES já havia relatado o repasse do NDB para parques eólicos no Piauí e Pernambuco. O contrato de US$ 300 milhões é voltado para investimentos em energia eólica, solar, pequenas centrais hidrelétricas.

Em outra frente do NDB, mas com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) há recursos para a recuperação de uma rodovia estadual no Maranhão e a implantação de redes de banda larga em municípios do Pará.

“Há muito espaço para o banco dos Brics em projetos de porte que visem a integração desses países. O investimento em logística produz um menor custo País”, considera o economista-chefe da SulAmérica, Newton Rosa.

Por outro lado, Rosa aponta que o BNDES terá um papel muito diferente daquele que vinha sendo praticado no passado. “O BNDES deve ser mais parecido com o Banco Mundial para projetos em saúde e educação e pode atender a necessidade de financiamento de pequenas e médias empresas”, prevê o economista-chefe.

O último boletim do BNDES já mostra esse direcionamento para micro, pequenas e médias empresas (MPME). A participação percentual nos desembolsos subiu para 48,6% no primeiro semestre de 2018, ante 39,7% em igual período do ano passado. Ao passo que a fatia para grandes empresas reduziu para 51,4%, ante 60,3% na mesma comparação.

“Uma coisa positiva foi feita pelo governo, a aplicação da TLP [a Taxa de Longo Prazo]. Antes, com a TJLP [a Taxa de Juros de Longo Prazo] todo o subsídio era coberto pelo Tesouro Nacional e isso distorcia o mercado de crédito. Com a retirada dessa distorção, as grandes empresas vão para o mercado de capitais para emitir debêntures”, observa Alexandre Espírito Santo.

Em contextualização semelhante, o professor e coordenador de cursos de graduação da Faculdade Fipecafi, Estevão Garcia de Oliveira, ressaltou que antes, o BNDES só financiava grandes empresas, que possuíam capacidade para ir ao mercado buscar recursos. “O financiamento para empresas de menor porte irá subir nos próximos anos”, aponta.

Quanto ao papel do NDB, o professor considera que o Brasil continua interessante para investimentos estrangeiros em infraestrutura. “Os Brics têm muito interesse em desenvolver o comércio internacional”, destacou o coordenador.

Para o especialista em mercado de capitais e sócio da NFA Advogados, Carlos Ferrari, a pretensão do banco dos Brics é atuar em atividades para facilitar o comércio entre os países. “A política externa está voltada para o aumento das exportações. O funding [financiamento] voltado para reduzir os gargalos de infraestrutura”, observa Ferrari.

Devolução ao Tesouro

Enquanto o NDB garante relevância, o BNDES provavelmente terá uma estrutura menor nas próximas duas décadas. O banco assinou no último dia 26 de junho, um acordo para pagar sua dívida com o Tesouro Nacional até 2040. A devolução será gradual e anual, sendo R$ 26 bilhões previstos para 2019. Os pagamentos desde dezembro de 2015 – incluindo os compromissos de 2018 (R$ 130 bilhões) – totalizam R$ 310 bilhões em dívidas à União.

“O BNDES ainda terá um papel muito importante no País em saneamento básico, infraestrutura e transportes, mas também deve atuar na negociação ou extensão de determinados financiamentos, e pode dar mais liquidez para o mercado de capitais”, prevê Ferrari. Ele diz que o BNDES acompanhará seus projetos.