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Por Marcela Ayres

(Reuters) - O Banco Central afirmou nesta quinta-feira que a venda de dólares à vista das reservas internacionais, anunciada na véspera como ferramenta adicional da qual lançará mão para intervenção no câmbio, pode de fato ajudar na redução da dívida bruta, embora essa não tenha sido a motivação para a mudança na atuação.

"A atuação do BC no mercado de câmbio visa a promoção do regular funcionamento do mercado local de câmbio", disse o BC à Reuters, via assessoria de imprensa.

A autoridade monetária anunciou na noite de quarta-feira mudanças em sua forma de atuar no mercado de câmbio, com a troca de posição cambial em contratos de swap tradicional por dólares à vista.

De 21 a 29 de agosto, o BC fará ofertas diárias de venda de 550 milhões de dólares no mercado à vista. Simultaneamente, serão ofertados contratos de swap cambial reverso de mesmo valor. Essa será a primeira vez que o BC ofertará dólares das reservas sem compromisso de recompra desde fevereiro de 2009.

Em nota nesta quinta-feira, o BC reconheceu que uma venda definitiva de divisas pelo BC tem efeito de reduzir a liquidez em reais na economia, mas ponderou que seu impacto no estoque de operações compromissadas não é mecânico e depende da evolução dos demais fatores que afetam a liquidez no mercado doméstico.

Nas operações compromissadas, o BC compra ou vende títulos públicos de sua carteira no mercado para regular o volume de reais em circulação na economia.

O BC afirmou que o efeito esperado da venda de dólares é uma redução da liquidez, o que demandaria um volume menor de compromissadas, tudo o mais constante.

"Como o volume de operações compromissadas compõe a dívida bruta, o efeito nesta também é de redução", disse o BC.

"Ressalta-se novamente que a atuação do BC no mercado local de câmbio visa a promoção do regular funcionamento do mercado e que o efeito descrito na liquidez do mercado não é motivação para a, mas um efeito não intencional da, atuação", completou.

Na exposição dos motivos que motivaram a mudança de atuação no câmbio, divulgada na véspera, o BC indicou que os swaps cambiais "muito provavelmente" continuarão sendo seu principal instrumento.

Segundo a autarquia, a venda de dólares à vista chega após diagnóstico de que a menor liquidez do fluxo financeiro deve "perdurar por tempo relativamente mais prolongado, já que seus fatores não devem se reverter no curto prazo".

"Dessa forma, a atuação mais tradicional, aumentando a oferta de dólares com compromisso de recompra em resposta ao aumento do custo da liquidez em dólares no mercado local, embora siga sendo uma alternativa, talvez não seja a mais indicada para este momento", diz voto assinado pelo diretor Bruno Serra (Política Monetária) e submetido à diretoria do colegiada da autarquia.

" A atual conjuntura sugere oferecer a alternativa de o mercado trocar alguma parcela do estoque de swaps cambiais por dólar à vista."

A caminho de fechar o sexto ano consecutivo com déficit primário, o governo não tem conseguido economizar para pagar juros da dívida pública. Em contrapartida, a queda da Selic para seu menor patamar histórico aliada a outras medidas em curso, como o pagamento antecipado do BNDES e da Caixa ao Tesouro por repasses feitos no passado, têm ajudado no controle da conta de juros.

Hoje a Selic está em sua mínima histórica de 6% ao ano e a perspectiva é que seja reduzida pelo Banco Central à frente, em meio a um cenário de debilidade econômica, inflação sob controle e avanço da reforma da Previdência.

Em junho, a dívida bruta, considerada um importante indicador de solvência do país, chegou a 78,7% do PIB, segundo dados mais recentes do BC. A média de emergentes é de cerca de 50% do PIB.

 

(Edição de Isabel Versiani)