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O otimismo sobre a passagem da reforma da Previdência tem puxado as curvas de juros futuros para baixo e deve trazer volatilidade nessas taxas até maio. Apesar do baixo prêmio, os contratos com prazo até 2020 já mostram juros abaixo da taxa básica (Selic).

A aprovação da idade mínima para o novo texto da Previdência pelo atual presidente Jair Bolsonaro (PSL), na semana passada, já influenciou os juros futuros. No fechamento de ontem, por exemplo, a curva para janeiro de 2020 encerrou em 6,395%. A taxa é 0,105 ponto percentual (p.p.) menor do que a Selic, no atual patamar de 6,5%, e 1,605 p.p. inferior do que o previsto no relatório Focus, do Banco Central (BC).

De acordo com o economista-chefe da Guide Investimentos, Victor Candido, a curva tem perdido “muito prêmio e muito rápido”. “As taxas com vencimento em 2024, por exemplo, saíram de 11% em setembro para 8,33% agora. A curva fechou bastante de lá pra cá e agora, com o prêmio de risco bem menor. O que condiciona as taxas, agora, é o movimento da reforma da Previdência”, acrescentou o especialista.

Nas demais taxas, o contrato para janeiro de 2021 fechou, ontem, com 7,00% de 6,931 no ajuste anterior, enquanto o Depósito Interfinanceiro (DI) para 2023 foi de 8,022% para 8,12%. Na ponta mais longa da curva, a taxa com vencimento em janeiro de 2025 ficou em 8,660%, de 8,531% do ajuste anterior.

Segundo o economista-chefe da Necton, André Perfeito, apesar do ambiente doméstico favorável trazer a perspectiva de que boa parte dos problemas fiscais do governo serão resolvidos, o impacto positivo da reforma previdenciária só será sentido no longo prazo.

“O déficit primário desse ano ainda é grande e o ajuste da Previdência vai economizar R$ 1 trilhão, mas apenas em dez anos”, avalia o especialista. “O governo está achando que tem timing infinito, como se tivesse todo o tempo do mundo. Mas ele não tem, e é preciso agir porque apenas juros baixos não fazem verão”, complementa o economista. Já para Victor Candido, ainda há uma possibilidade de que as curvas fechem ainda mais ante a passagem da reforma da Previdência Social. “Diminuindo um pouco do apetite por recursos do governo, existem mais recursos no mercado e, consequentemente, também precisa de juros menores. Mas isso só vem com mudanças estruturais”, afirma o especialista.

Perspectivas no horizonte

Além disso, apesar de fatores como a política de juros nos Estados Unidos e a ainda fraca atividade econômica no País também serem fatores importantes com potencial para influenciar nas taxas de juros futuras, as curvas já não têm tanto prêmio a ser reduzido.

“Tanto nos vencimentos para 2021 quanto para 2022, as taxas estão abaixo do previsto no Focus. Não há mais prêmio para que essas taxas reduzam muito mais. Diferente dos prazos mais longos, que acabam tendo um prêmio de risco e liquidez embutidos que vêm com a incerteza sobre como a economia estará”, afirma Candido, da Guide Investimentos.

Do lado do cenário internacional, no final de janeiro último, por exemplo, o Federal Reserve (Fed, banco central estadunidense) decidiu manter as taxas de juros do país entre 2,25% e 2,50% e reforçou uma sinalização de que poderá manter as taxas nesse intervalo por um pouco mais de tempo.

“Caso isso mude e haja uma perspectiva de elevação de juros nos Estados Unidos por default, por exemplo, isso acaba contaminando todo o resto do mundo. Mas a tendência é positiva e tudo indica que a situação lá fora conspire para uma situação mais controlada nas curvas”, exemplifica Perfeito.

Já em relação à atividade econômica do País, caso haja um aumento mais forte do consumo, os índices de preço facilmente traduziriam isso em altas da inflação. Tal movimento, porém, só deve ser vistos daqui alguns trimestres.

No relatório Focus, por exemplo, as últimas indicações para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficaram em 3,87% para 2019 (era 4,01% há quatro semanas). As estimativas para o Produto Interno Bruto do País (PIB) também diminuíram, foram de 2,53% para 2,48%, na mesma base de comparação.

“No curto prazo, a expectativa para a reforma, a atividade fraca e o setor externo vão balizar os juros. Mas são pontos que ainda podem ter alguma mudança”, reitera Perfeito, lembrando que o resultado do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe) avançou 0,58% na segunda leitura de fevereiro. “Ainda está baixo, mas já sinaliza que a inflação está querendo se mostrar um pouco mais forte”.

“Nesse sentido, o cenário internacional influencia menos. O que domina os mercados brasileiros é a dinâmica interna. Precisamos saber como e qual será a reforma que realmente vai passar pelo Congresso e, até que haja uma certeza sobre a reforma, entre abril e maio deste ano, ainda veremos certa volatilidade nos juros futuros”, diz Candido.