Publicado em

A deterioração das expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ocorreu de forma mais rápida este ano do que em períodos anteriores.

Da última semana de fevereiro para esta, o mercado financeiro cortou de 2,48% para 2% a projeção de expansão do PIB para 2019, segundo o Boletim Focus divulgado ontem pelo Banco Central (BC). Em anos anteriores, a redução das previsões do mercado costumava ocorrer a partir da metade do ano.

Incertezas sobre a aprovação da reforma da Previdência Social e sobre a capacidade de articulação política do presidente Jair Bolsonaro (PSL) explicam essa diminuição mais rápida das projeções, considerada “emblemática” para a coordenadora do curso de economia do Insper, Juliana Inhasz. “Essa velocidade da deterioração preocupa e mostra que estamos em contexto [político] complicado”, reforça Inhasz.

Nos últimos dias, Bolsonaro e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) se desentenderam nas redes sociais, o que fez o líder da Casa legislativa se indispor com a articulação do governo. Porém, no final de semana, Maia voltou atrás e disse que irá “blindar” a reforma da Previdência.

O economista da Saint Paul Escola de Negócios, Maurício Godoi, avalia que este é um bom sinal, mas que o Bolsonaro e sua família terão que colaborar para o andamento da proposta.

Para Godoi, caso a reforma não seja aprovada no Congresso, o PIB pode ter um crescimento menor do que o esperado atualmente. “Apesar da reforma da Previdência ter um impacto fiscal de longo prazo, a sua não aprovação gera uma perspectiva ruim sobre a solvência do governo, situação que diminui a intenção das empresas de investir”, diz.

“Se eu sei que o déficit público do governo vai continuar subindo, isso significa que o governo pode aumentar aumentar impostos e que BC pode elevar a taxa de juros, reduzindo, portanto, o consumo das famílias”, afirma Godoi.

A decisão por elevar juros em um contexto de não aprovação da reforma ocorre pelo aumento da percepção de risco em relação ao Brasil. “Como o risco é elevado, os investidores passam a exigir uma taxa de juros maior para poder alocar recursos no Brasil. Do contrário, eles podem direcionar seu dinheiro para um país onde eles terão um retorno semelhante, muitas vezes, porém com um risco bem menor”, destaca Inhasz, do Insper.

Taxa de câmbio

A economista Latin América da Coface, Patrícia Krause, diz que além dos impactos sobre crescimento econômico, a não aprovação da reforma pode ter efeitos também na taxa de câmbio. Segundo ela, os conflitos políticos “contaminam” os indicadores de confiança das empresas, que já não registram avanços significativos.

“A atividade econômica já está muito enfraquecida. E cada notícia negativa no ambiente político interfere nos indicadores de confiança das empresas, responsáveis por investir e gerar empregos no País”, ressalta Krause.

Com a atividade econômica rodando nos atuais níveis, o Brasil apresentará, nesta década (2011-2020) o seu pior período de crescimento dos últimos 120 anos, segundo um levantamento do pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE FGV), Marcel Balassiano.

O estudo afirma que, por enquanto, a média de crescimento do PIB brasileiro entre os anos 2011 e 2018 foi de 0,6%. Se considerarmos a mediana das expectativas de mercado da Focus para os anos de 2019 e 2020 (2,01% e 2,80%, respectivamente), a média da década será de 0,9%, quase a metade de crescimento da “década perdida” nos anos 1980.

“Para a década atual não ser a pior década em termos de crescimento econômico, e conseguir ser melhor [ou “menos pior] do que a década de 1980, o PIB brasileiro teria que crescer, em termos reais, 5,7% tanto em 2019, quanto em 2020, o que parece bastante improvável. Então, podemos concluir que os anos 2011-20 foram mais ‘perdidos’ do que a chamada ‘década perdida’ dos anos 1980”, afirma Balassiano.

Ao se referir a números do Ministério da Economia, o especialista da FGV diz ainda que, sem a reforma, a economia pode cair 1,8% em 2023. Com a reforma o PIB deve avançar 3,2% no mesmo ano.

Revisão dos juros

O Boletim Focus do BC mostrou que o mercado vê manutenção da taxa básica de juros em 6,50% ao ano em 2019. Já para 2020, as expectativas caíram de 7,75% para 7,50% ao ano, ante 8% previsto há quatro semanas atrás.

No caso de 2021, a projeção do mercado seguiu em 8%, igual ao verificado um mês antes. Já a perspectiva para a taxa Selic para o fim de 2022 também permaneceu em 8%.