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O que já era ruim em abril ficou pior em julho. O Índice de Clima Econômico (ICE) do Brasil, que estava em 11,4 pontos negativos há três meses, acentuou a queda e atingiu 45,9 pontos negativos.

Esse indicador-síntese (ICE) que acompanha a situação atual (ISA) e expectativas (IE) compara diferentes países e trabalha com uma escala entre 100 pontos negativos a 100 pontos positivos, sendo zero, o ponto de inflexão, ou seja, o divisor de sinal de clima econômico.

De acordo com os dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com a Ifo Institute da Alemanha, houve uma piora nas expectativas (IE) do Brasil por causa da revisão para baixo nas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e da proximidade de uma eleição presidencial ainda indefinida; e, além disso, um maior número de analistas consultados considerou a situação atual (ISA) desfavorável.

“O Brasil vem revisando para baixo suas expectativas de crescimento do PIB desde o início do ano. E os dados da economia têm mostrado que a recuperação não está acontecendo”, resumiu a pesquisadora da área de Economia Aplicada do IBRE, Lia Valls.

A especialista pontuou, no entanto, que o Índice de Clima Econômica (ICE) da América Latina também voltou a ser considerado desfavorável (em 21,1 pontos negativos), e que o ICE em todo mundo, embora esteja positivo, caiu de 16,5 pontos para 2,9 pontos.

“O discurso mais agressivo na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China afeta as expectativas e pode piorar os fluxos de comércio. Os países da América Latina são grandes exportadores de commodities”, argumentou Valls.

Outro fator que preocupa o mundo (incluindo o Brasil e a América Latina) é o aumento dos juros nos Estados Unidos. “Isso reverte os fluxos de capital”, respondeu Lia Valls.

Questionada sobre quais fatores pesam mais na avaliação do Brasil, a pesquisadora foi clara. “No momento, a questão doméstica pesa mais. A eleição poderá influenciar, para cima ou para baixo, dependendo do resultado nas urnas”, disse.

Ela contou que o Clima Econômico na Colômbia está melhor (31,8 pontos positivos) por razões políticas, um novo governo acaba de tomar posse. “Na Argentina também foi assim, quando teve a eleição, mas depois piorou muito (51,3 pontos negativos em julho) pois descobriram que o presidente Maurício Macri não é um salvador da pátria”, diz.

Para o vice-presidente de investimentos da SulAmérica, Marcelo Mello, a guerra comercial entre Estados Unidos e China é ruim para as expectativas, mas até o momento, os valores em barreiras tarifárias não são “muito significativos” para afetar o comércio global. “Essas tarifas de importação anunciadas de um lado ou de outro não representam nem 0,1% do crescimento global, mas esse sinal de intervencionismo e protecionismo é muito ruim para o mercado”, diz.

Mas o executivo considera que o aumento dos juros nos Estados Unidos pode causar problemas maiores para países emergentes como o Brasil. “Se o juro nos EUA sobe enquanto a Europa e o Japão estão com as taxas muito baixas, o diferencial do juro americano aumenta e pode haver um fluxo muito maior de recursos de outros países para os Estados Unidos”, argumentou.

Segundo a Sondagem da América Latina, pouco países tiveram melhora no clima econômico nos últimos três meses: Bolívia, Colômbia, Peru e México. Já a Argentina e Uruguai passaram do campo positivo para o negativo. “No caso da Argentina, as dificuldades do governo Macri para resolver a questão fiscal, controlar a inflação e o déficit externo num cenário com viés recessivo explicam a avaliação”, relata a sondagem divulgada pelo Ibre.

Entre os últimos

Nesse contexto, o Brasil figurou entre os últimos do levantamento, com 45,9 pontos negativos, pouco melhor que a Argentina (51,3 pontos negativos), Equador (60 pontos negativos) e a Venezuela (100 pontos negativos), essa última sem qualquer cenário de melhora.

Entre nossos vizinhos, a Colômbia está com 31,8 pontos positivos, seguida por Peru com 16,6 pontos positivos, e o Chile com 8,9 pontos positivos. No caso dos países desenvolvidos, a Alemanha conta 30,7 pontos positivos, seguido pela França com 23,4 pontos, EUA com 19,6 pontos e a União Europeia com 11,9. Já o Japão registra 2,7 pontos negativos.