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Mesmo com a melhora do mercado de crédito e do recuo na taxa básica de juros do País (Selic), a redução ao tomador só será sentida no médio prazo. A expectativa, é de que a queda só seja refletida em linhas que ofereçam garantias e menor risco aos bancos.

Apesar do menor nível histórico da Selic, agora em 6%, a taxa média de juros do sistema financeiro ficou em 25,2% ao ano (a.a.) em junho último, segundo as últimas informações do Banco Central (BC). O número é um aumento de 0,6 ponto percentual (p.p.) em relação a igual mês de 2018 (24,6% a.a.).

De acordo com o diretor de estudos e pesquisas da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, ainda que novas quedas devam acontecer na taxa básica, os juros continuarão elevados no curto prazo.

“A tendência é de queda, mas os efeitos disso na ponta ainda são muito baixos. De um lado, o ambiente doméstico onde a economia apresenta um cenário de melhora e de redução do risco é positivo. De outro, os riscos internacionais, com a guerra comercial [entre Estados Unidos e China] e o Brexit, podem influenciar negativamente”, explica o especialista.

Um levantamento realizado pela associação aponta que mesmo com todas as elevações na Selic observadas no período entre março de 2013 e junho de 2019, as taxas de juros médias para pessoas físicas mostraram uma elevação de 30 p.p. (34,1%), de 87,97% a.a. para um total de 118% a.a.. O mesmo movimento de alta é observado nas operações para empresas, que subiram 5,61 p.p. na mesma base de comparação, de 43,58% para 49,19%.

“O spread no Brasil é alto. E mesmo que a tendência seja de queda, o ritmo em que isso vai acontecer será lento, principalmente porque o spread depende de outras coisas, como inadimplência e a recuperação da economia”, pontua o professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pedro Raffy Vartarian.

Ainda conforme os dados do BC, a inadimplência média do sistema financeiro ficou em 2,9% em junho, recuo de apenas 0,1 p.p. em comparação ao mesmo mês de 2018. Já os spreads, por outro lado, demonstraram um avanço de 1,9 p.p., de 17,7 p.p. para 19,6 p.p..

Para o professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Walter Franco, apesar das sinalizações de melhora, ainda não será possível observar grandes avanços no mercado de crédito ao longo dos próximos meses.

“Essa evolução, inclusive, só deve vir no longo prazo, muito mais pelo impacto da maior competição do sistema bancário, com a chegada das fintechs e pela entrada de novos players”, comenta o especialista, reiterando que esse cenário é uma realidade mesmo que haja a liberação do FGTS.

“As famílias já estão com um nível de endividamento significativo e isso impede uma tomada de crédito mais forte. Além disso, o medo do desemprego ainda é uma constante. Só deveremos ver algum movimento mais positivo no final do ano, mas que ainda assim é apenas sazonal por conta das festas e contratações temporárias”, acrescenta Franco.

“Talvez as linhas que tenham uma garantia maior consigam responder mais rápido e demonstrar uma queda mais forte”, completa Oliveira.

Cenário Internacional

A respeito dos riscos internacionais, como a saída da Inglaterra da União Europeia, a desaceleração da economia na Europa e a guerra comercial entre Estados Unidos e China, os especialistas destacam possíveis impactos indiretos nas taxas de juros brasileiras.

“Quando a China desvaloriza sua moeda para conseguir compensar uma sobretaxa norte-americana, por exemplo, acaba impactando a exportação dos demais países. Isso deve refletir por aqui”, avalia Franco, do Ibmec.

“O cenário doméstico mais positivo pode não ser suficiente. Temos um quadro desafiador pela frente”, diz Oliveira.