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Os indicadores de inflação ficaram negativos em novembro, especialmente por conta da baixa dos preços administrados, com destaque para energia e combustíveis.

A tendência é que esses índices continuem sob controle no próximo ano. De acordo com especialistas, ainda há uma persistente ociosidade da capacidade instalada da economia que limita pressões inflacionárias.

Diante desse cenário, o próximo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que substituirá o atual chefe da instituição Ilan Goldfajn, deve ter, ao menos no próximo ano, uma gestão sem grandes turbulências.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,21% em novembro, enquanto em outubro a taxa foi de 0,45%. O resultado é o menor desde junho de 2017 (-0,23%) e para meses de novembro desde a implantação do Plano Real, em 1994.

O acumulado no ano ficou em 3,59%, acima dos 2,50% registrados em igual período de 2017. Em 12 meses, o índice ficou em 4,05%, abaixo dos 4,56% em intervalo imediatamente anterior, mostram dados divulgados na última sexta-feira (7) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O grupo dos Transportes (-0,74%) e da Habitação (-0,71%) foram os principais itens que provocaram a baixa do IPCA. No caso dos Transportes, a queda foi provocada pelo recuo dos preços dos combustíveis (-2,42%), sendo que a gasolina ficou, em média, 3,07% mais barata em novembro. Já as quedas do óleo diesel e do etanol foram menos intensas, -0,58% e -0,52%, respectivamente, ante as altas de 2,45% e 4,07% registradas em outubro.

No caso da Habitação, o destaque ficou com o item energia elétrica (-4,04%), a maior contribuição negativa no IPCA de novembro. A queda foi motivada pela mudança na bandeira tarifária de vermelha para amarela no mês passado.

A economista da 4E Consultoria Giulia Coelho lembra que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou bandeira tarifária verde para dezembro, o que irá baratear ainda mais os preços.

Além disso, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Eduardo Barata Ferreira, chegou a afirmar, na última quinta-feira, que o atual volume dos reservatórios das usinas hidrelétricas indica que a bandeira tarifária permanecerá verde por “muito tempo”.

Em relação aos preços dos combustíveis, Giulia ressalta que, a partir do final do setembro, começou a ocorrer uma queda da taxa de câmbio, que vinha em movimento de alta desde meados do ano.

“Com essa diminuição do câmbio, a Petrobras se viu obrigada a reduzir o preço dos combustíveis nas refinarias. Porém, esses preços ficaram represados durante algumas semanas. As distribuidoras mantiveram uma margem alta e não reduziram na bomba. Por outro lado, percebemos que houve um desrepresamento muito forte em novembro, o que acabou provocando uma queda dos preços ao consumidor”, comenta Giulia.

Outros indicadores

Os combustíveis também foram responsáveis pela deflação de 1,14% do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) de novembro, também divulgado na última sexta-feira. Este é composto pelo Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC).

O IPA, por exemplo, desacelerou de 0,17% em outubro para -1,70% em novembro, puxado por Bens Finais, que caíram 1,01%, O principal responsável por este recuo foi, justamente, o subgrupo combustíveis para o consumo, cuja taxa passou de -2,82% para -15,17%.

Já o IPC recuou 0,17% no mês passado, na esteira de uma queda de 0,57% dos Transportes. Dentro deste grupo, a gasolina caiu 2,9%.

Na avaliação do pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) Carlos Thadeu, este cenário mais benigno dos combustíveis e energia elétrica, somado à persistência da elevada capacidade ociosa das empresas, indicam que os preços devem ficar sob controles no próximo ano.

Diante deste quadro, Carlos Thadeu afirma que a taxa básica de juros (Selic) deve mesmo encerrar 2019 abaixo do que vinha se esperando há pouco tempo atrás. O Boletim Focus do BC, por exemplo, cortou, há duas semanas, de 8% para 7,75% a perspectiva de juros para o ano que vem. Para este ano, mantém-se em 6,5%.

Reformas

Giulia Coelho conta que a 4E também reduziu as suas projeções para a taxa básica, de 9% para 8%. “Nós estávamos com 9,0% na nossa última projeção de Selic para 2019”, diz.

“Após as eleições, vimos que o próximo governo deve passar por alguma dificuldade na aprovação de reformas, restringindo, portanto, o crescimento econômico esperado para o próximo ano e levando a menores pressões inflacionárias. Tal cenário nos levou a reduzir nossa projeção para 8,0% para 2019”, reforça a economista da 4E Consultoria.