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Saras Sarasvathy, professora da Universidade de Virginia (EUA), é a idealizadora do modelo de empreendedorismo conhecido como effectuation. Uma das suas premissas é que a pessoa à frente de um negócio pode ser bem-sucedida fazendo apenas o que sabe.

Diferente da abordagem tradicional, na visão de Saras não há necessidade de uma ideia quase sempre brilhante, estudos de mercado e captação de investimentos. A especialistas afirma que há maior eficácia em moldar um futuro de sucesso do que tentar prevê-lo com planos de negócios inflexíveis. A ideia principal da sua teoria gira em torno da afirmação de que qualquer pessoa pode empreender, basta ter autoconhecimento.

Nascida na Índia, Saras é pesquisadora e professora da Darden School of Business. Em entrevista exclusiva para o DCI no início de julho, quando esteve em São Paulo para uma série de palestras, ela conta como colocar em prática o seu modelo. 

Pesquisei sobre o modelo, mas gostaria de saber de você, em apenas uma frase: do que se trata o "effectuation"?

Trata-se de criar um futuro e não tentar prevê-lo.

O modelo de efetuação funciona para todos?

Com certeza! Isso é uma das coisas que tenho falado para as pessoas durante muito tempo. O que é interessante sobre o effectuation é que todo mundo pode usá-lo e todos podem realmente criar um negócio. As pessoas acham que o empreendedorismo é aquela coisa mágica e difícil que somente alguns conseguem fazer. Se você pensar bem sobre isso, de certa forma o empreendedorismo é fundamental para a economia. Eu pergunto aos meus alunos: o que vocês farão se perderem seus empregos? O empreendedorismo ideal tem que ser fundamental e todos têm que ser capazes de realizá-lo. Eu não digo que todo mundo deve ser empreendedor, mas todo mundo deve aprender a empreender e assim decidir se deseja ou não abrir um negócio.

E as três questões básicas para iniciar o processo de autoconhecimento? Como elas funcionam neste modelo?

Esta é uma pergunta interessante, porque a resposta não é necessariamente que você deve começar desta forma, mas sim que você deve pensar de onde a teoria do effectuation veio. Eu saí e estudei empreendedores especialistas que começaram várias companhias, incluindo umas que falharam e outras que tiveram sucesso. Foi entendendo realmente o aprendizado destes empreendedores por meio da experiência que eu, assim como eles, percebi que, para começar algo, não é preciso uma ideia brilhante nem muito dinheiro. A única coisa que é preciso para começar um negócio é entender pelo menos um pouco quem você é e quais coisas você consegue fazer. As perguntas mostram que, mesmo não tendo nada material, você terá alguns aspectos da sua personalidade bem pontuados. Estes aspectos são: quem você é, coisas que você sabe (algumas habilidades e educação) e as pessoas ao seu redor (que é quem você conhece). Isso é o mínimo que todas as pessoas possuem e é o necessário para começar uma grande empresa. Até mesmo alguém pobre terá habilidades pessoais, valores, aspirações, autoconhecimento e contato com outras pessoas.

Qual é a maior diferença entre o modelo convencional e o modelo de "effectuation"?

A grande diferença é a atitude de cada um com o que é o futuro. Muitos modelos convencionais assumem que é possível prever o futuro e, mais além, que é possível controlá-lo. Investidores estão sempre tentando adivinhar quem será o próximo empreendedor de sucesso, empreendedores estão sempre tentando adivinhar qual será o próximo mercado de sucesso, e assim vai. Todos esses modelos convencionais tentam adivinhar. O effectuation diz que você não precisa prever porque ninguém sabe a resposta para estas perguntas. Assim, a ideia seria minimizar a previsão e moldar o futuro.

Existe uma maneira de misturar o modelo convencional com o "effectuation" ou você acha que é impossível, já que ambos são opostos?

Você pode absolutamente misturar e combinar. Sabendo que o futuro pode ser imprevisível para a maioria das pessoas, pode-se usar o effectuation tanto quanto o modelo convencional muito bem, mas é preciso entender o cenário com o qual você está lidando. O interessante sobre essas duas teorias é que, quando o futuro se torna previsível – quando você já sabe o que vai acontecer –, o modelo convencional pode ser usado. Mas, quando o futuro é incerto, o melhor modelo é o effectuation

O "effectuation" não seria uma maneira perigosa de começar uma empresa, por eliminar o plano de negócios?

O effectuation te ensina a usar uma lista de passo a passo ao invés de um plano. Essa é a primeira coisa. A segunda coisa é que só porque você tem um plano de negócios não significa que ele será utilizado ou que você terá sucesso. Existem várias pesquisas que mostram que fazer um plano de negócios não faz com que o processo seja mais fácil ou seguro. Algo que costumo falar aos meus alunos é que é necessário aprender a realizar um plano de negócios porque ele será requisitado por bancos e patrocinadores, por exemplo. Portanto, é necessário aprender a montar um plano de negócios, mas não se deve pensar nele como um plano. É preciso enxergá-lo como uma ferramenta de comunicação, como uma forma de tentar e pensar sobre todas as coisas que podem dar certo e todas as coisas que podem dar errado. Eu gosto de dizer que não tem problema se planejar, mas se você pensar nisso como um plano você poderá deixar de enxergar todas as outras oportunidades que estão a sua volta e que podem aparecer repentinamente.

Existe uma maneira correta de colocar este modelo em prática e ser bem sucedido?

Existe um passo a passo que você pode aprender para colocar o effectuation em prática, mas a conexão entre este modelo e o sucesso é muito interessante. Existem duas coisas que posso garantir: se você está construindo um negócio de forma eficaz e este negócio dá certo, existem chances de surgir uma inovação a partir dele e, então, um maior sucesso; também te garanto que, se você seguir o passo a passo do effectuation e falhar nos negócios, o custo será bem menor. A única coisa que eu não consigo garantir é a probabilidade de você falhar ou ter sucesso, porque ninguém em nenhum modelo pode garantir isso. Não é sobre a probabilidade de sucesso, é sobre a magnitude deste sucesso e o custo de falha ser baixo.

O ambiente de negócios brasileiro ainda é muito tradicional. Você acredita que é possível implantar esse modelo aqui?

Os Estados Unidos também são muito tradicionais. Todo mundo pensa no Vale do Silício, associa a startups de sucesso como o Airbnb e o Uber e acha que o país é completamente inovador. No entanto, se você for ver mais a fundo, quase todos os negócios são muito tradicionais. A ideia de que o Brasil é mais tradicional em negócios do que os EUA é equivocada. A maioria dos negócios em quase todos os países ainda é básica, como serviços e compras. O effectuation aparece para todos os bilionários da tecnologia em todos os lugares do mundo. Eu acho que superestimar o papel do Vale do Silício é realmente subestimar o papel de negócios reais ao redor do mundo. O mais interessante é que alguns desses negócios tradicionais viram realmente inovadores. Por exemplo, o negócio de maior sucesso na China é o Alibaba. Tudo bem que ele parece com algo tecnológico, mas o que eles fazem é a coisa mais antiga do mundo: conectar compradores a vendedores. Como você pode ver, a tecnologia nos permite fazer as mesmas coisas antigas de novas maneiras. Além disso, as coisas antigas, sendo feitas ligando para as pessoas no telefone ou online, mantêm a mesma estrutura básica: você tem que encontrar clientes, eles têm que pagar o suficiente para você permanecer no negócio e você tem que encontrar pessoas que queiram trabalhar com você e que trabalhem com prazer para poder atender o cliente. Eu acho que todos os negócios são basicamente os mesmos, então a efetuação não só funcionará no Brasil, ela funcionará em todos os lugares.