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Com a vantagem de serem brasileiras e de conhecerem melhor as comunidades locais, startups brasileiras criam aplicativos de mobilidade e concorrem com as grandes internacionais, como a Uber e a Cabify. Embora as companhias estrangeiras tenham uma escala maior e possivelmente preços mais vantajosos, as empresas desenvolvidas regionalmente prometem oferecer um produto mais adequado para seus consumidores. 

O diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Izaias de Carvalho Borges, explica que a concorrência com as empresas internacionais favorece as brasileiras. “À medida que um aplicativo de uma multinacional, como a Uber, vai se popularizando, ele quebra a primeira barreira de desconfiança do consumidor neste tipo de negócio”, diz.

Um dos aplicativos brasileiros que estão explorando o mercado de mobilidade é o Garupa, do Rio Grande do Sul. A empresa nascente, que leva o mesmo nome, está no mercado há cerca de um ano e meio. Ela iniciou a prestação de serviços na região de Santa Maria e, atualmente, está em 56 municípios do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.  Para expandir com mais facilidade e manter a qualidade dos serviços, a companhia optou por atuar em um modelo de franquias.

Hoje, a Garupa conta com cerca de dez mil motoristas cadastrados e faz uma média de 200 mil corridas por mês. A empresa, que optou por não divulgar o faturamento ou valores de investimento, pretende iniciar operações em outros países. Para o primeiro semestre de 2019, a intenção é atuar na Argentina, Paraguai e Uruguai.

A parceria com os franqueados é um dos principais diferenciais da Garupa em relação às grandes companhias, segundo o CEO, João Marcondes Vargas Trindade. Os sócios operadores, como os empreendedores são chamados pela startup, conhecem a região em que vivem e, geralmente, possuem empresas em suas cidades, podendo oferecer boa estrutura e condições aos motoristas parceiros.

Desse modo, variando conforme a região e sócio operador, a Garupa oferece aos motoristas planos de saúde, descontos em postos de gasolinas, lavagens de veículos, oficinas e em planos de telefonia. “As empresas internacionais não oferecem este tipo de benefício”, diz Trindade. Ele considera que a motivação dos condutores influencia na satisfação dos usuários. Destaca ainda que o fato de a companhia ser brasileira gera mais conforto aos clientes.

A comissão cobrada do motorista em cada viagem é de 20%, vantajosa se comparada com o percentual da Uber, que fica com 20% no UberBlack e 25% no UberX.

Outra startup que decidiu criar um aplicativo de mobilidade foi a Moobi, de Belém, no Pará. Além de atuar na cidade em que nasceu, a empresa está presente em Fortaleza, no Ceará, Balneário Camboriú, em Santa Catarina, Recife, em Pernambuco, Belo Horizonte, em Minas Gerais e Goiânia, em Goiás.

Embora atenda em diversos municípios, o diretor comercial, Carlos Eduardo Teixeira, explica que, ainda assim, a companhia se considera regional. “A gente entende o que as comunidades locais querem e precisam. Isso acaba sendo um ponto positivo em relação às outras grandes empresas.”

O diretor comercial considera que a maior vantagem das empresas internacionais ou daquelas que recebem capital externo, como a 99, é o investimento em marketing. No entanto, para ele, as brasileiras conseguem estabelecer um relacionamento melhor com os motoristas.

“Nós [da Moobi], por exemplo, oferecemos muitas promoções culturais, damos ingressos ou fazemos confraternizações. Além disso, disponibilizamos um lugar físico para os motoristas, onde podem descansar ou receber treinamento”, explica. A companhia fica com um percentual de 15% em cada corrida.

A startup foi fundada em maio deste ano e lançou seu aplicativo em agosto. Atualmente, está com 80 mil motoristas cadastrados e uma média de 300 mil usuários ativos. Desde sua fundação, ela teve cerca de R$ 3 milhões em investimentos dos próprios sócios.

No momento, participa de três rodadas de aportes. Uma na 100 Open Startups e outra na 100 Startups to Watch, plataformas em que grandes players globais fomentam empresas nascentes. E, além destas, também está na StartOut Brasil, iniciativa do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), Sebrae, Apex Brasil e Anprotec.

Periferia

A JaUbra não tem a ambição de concorrer com as multinacionais. Foi criada para atender a rota periférica de Brasilândia, na zona norte de São Paulo, uma demanda que as grandes companhias evitam. Mesmo com grande movimento, algumas empresas optam por vetar essa região, em seus aplicativos, como medida preventiva contra violência. O negócio, que está no mercado desde fevereiro de 2017, faz cerca de 10 mil viagens por mês.

Borges, da PUC-Campinas, acredita que iniciar de forma regional é essencial para que os aplicativos ganhem força. “No entanto, quando atingirem uma boa ‘musculatura’ e, ainda assim, quiserem avançar e crescer, vão precisar expandir para novos locais ou devem ser compradas pelas grandes.”