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Startups que desenvolvem aplicações baseadas em machine learning (sistemas que “aprendem” com novos dados, analisam e tomam decisões) buscam se consolidar no mercado trabalhando sob demanda. Com soluções específicas para cada cliente, elas conseguem atender diferentes segmentos, como saúde, entretenimento e varejo, e assim ampliam sua área de atuação.

Para o coordenador do curso de Engenharia de Controle e Automação do Instituto Mauá de Tecnologia, Fernando Madani, ainda não é comum encontrar este tipo de proposta, mas é algo que promete ganhar força.

Isso porque, segundo o especialista, mesmo os softwares prontos (ou “de prateleira”) frequentemente exigem algum tipo de adaptação para cada cliente. Uma empresa com flexibilidade suficiente para desenvolver soluções sob demanda pode atingir um leque de clientes abrangente. 

É essa a linha da Kunumi, startup mineira fundada em 2016 pelos sócios Nivio Ziviani e Alberto Colares. “Nós só precisamos de dados relevantes, atuais e reais. A partir daí, é possível aplicar em qualquer solução”, diz o diretor de comunicação e relações institucionais, Filipe Forattini.

Com esse espírito, a startup atende companhias das áreas médica, de engenharia, financeira, bioquímica e cultural. Embora a maior parte de seus contratos seja sigilosa, a empresa revela já ter fechado parcerias com grandes marcas, como a empresa de streaming Spotify, o Banco Inter, o hospital Sírio Libanês e a operadora de saúde Unimed.

Para o Sírio Libanês, a Kunumi criou um software para as unidades de terapia intensiva (UTIs). Com análise de dados, o produto identificava antecipadamente os riscos de piora e até mesmo de óbitos dos pacientes internados. A parceria com o hospital durou cerca de um ano e meio.

Em parceria com a Spotify, a startup conseguiu “compor” uma música póstuma do rapper Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage. O cantor havia deixado alguns manuscritos, trechos de composições e documentos que foram analisados e compilados pela empresa para simular como seria uma nova obra.

Geralmente, são os clientes que levam para a empresa os problemas que desejam solucionar, diz Forattini. Alguns levam uma ideia de como querem melhorar o enfrentamento de determinadas dificuldades. “A partir daí, cabe a nós entender se a demanda é possível ou não. Se for, nós nos debruçamos sobre os dados e criamos uma solução”, acrescenta.

A startup não revela o faturamento nem os investimentos efetuados desde sua fundação. Até o momento, a Kunumi não participou de programas de aceleração de negócios.

Versatilidade

Outra empresa que enxergou na atuação sob demanda uma forma de se consolidar foi a curitibana Prometheus, que criou o Robô Laura. O software foi originalmente desenvolvido para a área de saúde, mas depois ganhou novas aplicações.

Na saúde, a intenção é diminuir a ocorrência de sepse, condição caracterizada pela presença de agentes patogênicos no corpo, o que dificulta a tarefa do sistema circulatório de fornecer o fluxo sanguíneo necessário para órgãos vitais.

Com dados coletados nos prontuários médicos e equipamentos de acompanhamento, como os de cardiologia, a tecnologia informa para a equipe médica as alterações em pacientes que podem indicar a doença.

A startup tem dificuldades para manter o negócio apenas com os ganhos obtidos com a solução voltada à saúde. A empresa direciona por volta de 70% de seus recursos ao setor e seu retorno é de somente 15%. Por isso, a equipe decidiu diversificar sua atuação para o desenvolvimento de projetos sob demanda, para outras áreas.

Hoje, o maior cliente da empresa é a fabricante de automóveis Nissan. A startup desenvolveu para a montadora um chatbot que atua como um vendedor virtual: colhe as informações de usuários que entram no site e direciona a cada um as opções de produtos que combinam com seu perfil.

O projeto do software começou em 2012 e consumiu desde então R$ 2 milhões em investimentos. A empresa optou por não revelar o faturamento de 2017, mas espera atingir a cifra de R$ 6 milhões neste ano. Para 2019, a projeção é dobrar o valor.

Desafios

Embora trabalhar sob demanda esteja ajudando a empresa a atingir a projeção de faturamento, o CEO Jacson Fressatto espera começar a trabalhar com produtos de prateleira em 2020. “Até lá pretendemos estar com um portfólio definido. Trabalhar sob demanda é complicado porque para cada cliente a gente depende de uma ideia e os ganhos não são escalonáveis”, avalia.

Madani, do Instituto Mauá, considera a saída do modelo sob demanda para o de prateleira uma aposta difícil. “Mas, se os ajustes e configurações específicos para cada cliente continuarem a serem feitos, pode ser válido”, diz.

Para não correr o risco de ficar sem ganhos no período entre um projeto e outro, a Kunumi costuma desenvolver mais de um trabalho com um mesmo cliente. “Temos clientes com seis projetos ‘rodando’ em diferentes momentos. Ou seja, se um produto for finalizado, ainda estão acontecendo outros em diferentes estágios e com diferentes datas de finalização”, explica Forattini, da startup mineira.