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(Texto atualizado em 24/01 para correção de informação: Mike Ajnsztajn é brasileiro e não norte-americano, como informado anteriormente. Segue abaixo a íntegra corrigida.)

SÃO PAULO - De um lado, trabalhar com jovens empreendedores em busca do sonho de criar um grande negócio. De outro, fazer parcerias com grandes companhias para aproximá-las dessas startups. Esses desafios fazem parte da rotina da Ace e ajudam a explicar como essa aceleradora de negócios partiu do zero até alcançar um portfólio de empresas com valor combinado de mais de R$ 250 milhões.

É difícil personificar toda essa trajetória em uma pessoa, mas certamente o gaúcho Pedro Waengertner é um dos grandes responsáveis por esse sucesso. Antes de fundar a Aceleratech, embrião da Ace, em 2012, ele trilhou uma carreira semelhante à de muitos empreendedores que hoje passam por sua aceleradora.

Publicitário de formação, ele se interessou pelo mundo da tecnologia no fim da década de 90. “Era o início da internet comercial no País”, lembra. Ainda em Porto Alegre, foi um dos primeiros funcionários - e, posteriormente, sócio - da agência de publicidade Conectt, que já apostava em marketing digital quando esse termo ainda nem era conhecido.

Com a expansão da empresa, o publicitário se mudou para São Paulo em 2003 e passou a empreender na agência. Um de seus projetos mais bem sucedidos foi criado por volta de 2009, quando Waengertner desenvolveu uma spin-off para monitoramento de redes sociais, a Zubit.

O sócio que virou amigo

Em 2010, Waengertner foi apresentado ao empreendedor Mike Ajnsztajn, brasileiro que já vivia há anos nos Estados Unidos. O “gringo” trazia sua experiência, já que havia fundado e vendido uma startup de biotecnologia e a fábrica de preservativos Blowtex, enquanto Waengertner contava com a expertise no mercado local. Surgiu assim uma parceria de negócios que dura até hoje. 

A dupla apostou em replicar um modelo bem sucedido nos Estados Unidos. “A gente fundou o Zuppa, startup que fazia reservas de restaurantes, inspirados na Open Table.”

Apesar de considerar que hoje seria difícil fazer isso, o sucesso foi rápido. Em pouco mais de um ano os empreendedores já chamaram a atenção do Peixe Urbano, que naquele momento brilhava como pioneiro das compras coletivas no Brasil e adquiriu o Zuppa para melhorar a venda de serviços de gastronomia.

Embora não soubessem ao certo qual seria o passo seguinte, eles queriam emplacar algum novo empreendimento em dupla. Decidiram então se aventurar como investidores anjos, mas consideraram que a atividade não era escalável e que as empresas nascentes brasileiras ainda não estavam maduras para esse tipo de investimento.

Aceleratech

Para ajudar jovens a alavancar suas microempresas e prepará-las para atrair investidores, a saída foi abrir uma empresa que, além de capacitar esses empreendedores, ainda realizava aportes em troca de participação societária.

Inspirados em aceleradoras de negócios consagradas no exterior, como a norte-americana YCombinator, Ajnsztajn e Waengertner fundaram em 2012 a Aceleratech. “A gente ia fazer investimentos em até dez empresas e iríamos conseguir uma gigante rapidamente”, brinca Waengertner ao relembrar como imaginava que seria o crescimento.

Como era um mercado novo no Brasil, o método “tentativa e erro” foi muito utilizado. “A gente pensava que sabia escolher empresas, mas isso é uma falácia”, reconhece. Mais maduro, ele considera que empreender e escolher startups para apoiar são habilidades diferentes. “É como um cara que aprecia boa culinária e acha que pode ser um chef”, compara. 

As primeiras acelerações duravam três meses e tinham um formato didático. “Pegamos empresas que estavam no Power Point, erramos bastante nessa época”, diz, referindo-se a negócios ainda em fase muito inicial. A primeira turma contou com 11 startups, selecionadas entre 95 inscritas.

Crescimento

Com a evolução do ecossistema empreendedor brasileiro, a Aceleratech passou a ser mais exigente. Para a seleção das startups, por exemplo, o olhar dos fundadores mudou e eles passaram a dar mais valor à qualidade dos times, não tanto ao modelo de negócio e ao pitch apresentado.

Empreendedores trabalham na Ace; aceleradora já apoiou mais de 170 startups

Segundo Waengertner, outra conclusão foi “soltar” mais os empreendedores, para que eles mesmos possam buscar caminhos. “Aprendemos que acesso a networking e a capital são as duas coisas com mais valor que oferecemos.”

 Ao refletir sobre o papel das aceleradoras, Waengertner faz uma analogia. “Somos como um anabolizante. A gente ajuda as empresas a crescerem de forma mais rápida - mas, se o empreendedor for fraco, não adianta.”

Em meados de 2016 veio a mudança mais significativa. A aceleradora mudou de nome, passando a se chamar somente Ace, e ampliou suas ambições.

Para gringo ver

O nome Aceleratech, além de ser difícil para os estrangeiros, também se associava negativamente a negócios iniciantes. “Ser uma aceleradora é bom porque fica relacionado à inovação, mas o lado ruim é que passa o recado ao mercado de que as empresas que chegam até a gente são muito novatas”, diz Waengertner.

Não era mais a fase de ensinar conceitos básicos de empreendedorismo para os jovens e selecionar startups em estágio muito inicial. Os programas passaram a ter maior duração e os valores aportados também foram subindo. Hoje, cada empresa novata recebe R$ 150 mil por 10% de participação.

O ideal, de acordo com o fundador, é que as startups atuem por quatro meses no programa Ace Start, de pré-aceleração, e posteriormente passem pela aceleração tradicional. Na fase chamada Ace Growth, com duração de seis meses, os empreendedores buscam validar sua ideia e, já no mercado, confirmar se seu produto ou serviço tem aceitação do público e potencial para ganhar escala.

Além da maior qualidade dos empreendedores, Waengertner vê maior maturidade de outros players do ecossistema. “Os investidores estão mais qualificados e também há mais fundos de investimento voltados para startups.”

Parceria com grandes empresas

Observando essa maior qualificação dos empreendedores, grandes corporações passaram a se interessar por estar perto dessas empresas novatas. Em 2015 a Ace se posicionou como uma ponte entre esses dois agentes.

Seja fazendo trabalhos de mentoria para funcionários das corporações ou com acelerações corporativas com foco em um único segmento, o objetivo é o mesmo. “A gente quer criar negócios entre empresas e startups”, explica Waengertner.

De acordo com o fundador da aceleradora, sempre foram as empresas que os procuraram. Entre os 20 programas corporativos já desenvolvidos pela Ace passaram empresas como o braço brasileiro da multinacional de alimentos Nestlé e a petroquímica Braskem. Só em 2017, 14 clientes corporativos foram atendidos pela Ace, num sinal de consolidação dessa tendência.

Portfólio e internacionalização

Depois de acelerar 170 startups em mais de dez programas ao longo de seis anos de história, a Ace passou a ter o desafio de acompanhar esses empreendedores. Reuniões presenciais e relatórios são as práticas mais comuns para continuar apoiando as empresas do portfólio.

Pedro Waengertner tem planos de internacionalizar a aceleradora

Para medir o crescimento da aceleradora, há duas métricas principais: "o valor das companhias e o quanto de inovação estamos entregando aos parceiros”, diz Waengertner. Por um lado, a relevância da inovação é comprovada pelo interesse cada vez maior de grandes corporações em se aliar à Ace. O outro indicador é mais simples: o portfólio da aceleradora é avaliado em R$ 250 milhões.

Questionado sobre como vê a Ace no futuro, Waengertner pensa grande, com planos para fortalecer o negócio de forma contínua. “A gente pensa em internacionalizar, principalmente na América Latina”. Ele cita países como México e Argentina, onde considera que o ecossistema empreendedor está menos desenvolvido que o brasileiro.

Um dos objetivos é também dar mais poder aos funcionários, ou seja, fazer com que a Ace não dependa dos dois fundadores. “Queremos perenizar a empresa, que seja feito um ciclo no qual as [startups] investidas sejam vendidas e os empreendedores voltem para a Ace como investidores.”