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Após uma captação de recursos em formato pioneiro para um negócio de impacto social - por meio de debêntures, um título emitido por empresas e oferecido a investidores -, o mercado de capitais começa a ser visto como uma alternativa de financiamento viável para alavancar esse segmento no Brasil, assim como já acontece com outros setores da economia.

O instrumento financeiro para a primeira operação com esse perfil foi uma emissão de debêntures em um formato específico, com prazos, objetivos e remuneração que levam em conta as características de um negócio de impacto social. A oferta levantou R$ 5 milhões para o Programa Vivenda, startup que realiza reformas em casas de comunidades carentes.  

A gestora de recursos Din4mo, que já havia investido na startup e atua também como prestadora de serviços para empresas nascentes, uniu-se ao Grupo Gaia e ao escritório TozziniFreire Advogados para criar um modelo de investimento semelhante a iniciativas já utilizadas no exterior para apoiar negócios de impacto social. A ideia era adequar o modelo de debênture de forma que fosse atraente para os investidores e possibilitasse à startup levantar capital de giro. 

No caso do Vivenda, o modelo foi personalizado para proporcionar retorno para o investidor em prazo condizente com a natureza do negócio da Vivenda e, ao mesmo tempo, garantir a antecipação de recebíveis necessária para a startup operar.

O sócio-fundador da Din4mo, Marco Gorini, explica que para o Programa Vivenda é fundamental ter capital de giro. O motivo é simples: a startup realiza as reformas cobrando um tíquete médio de R$ 5 mil, mas parcela o recebimento em até 30 vezes com juros baixos, em torno de 2% ao mês. "Não tem como [a startup] sobreviver se não receber esse dinheiro à vista", diz Gorini. 

A emissão de debêntures garante fôlego para o dia a dia da startup, e a boa performance da empresa resulta em retorno financeiro para o investidor em longo prazo.  

Essa inovação tem alguns pontos diferentes em relação aos aportes tradicionais. Além de a startup não ceder participação societária a quem investe nas debêntures, o montante também não vai para o caixa da empresa, mas sim para a securitizadora, e é aí que entra o grupo Gaia. 

Haroldo Torres, sócio-fundador da Din4mo

Como securitizador e emissor das debêntures, o grupo Gaia atua intermediando o capital dos investidores e o envio dos recursos captados para o caixa da Vivenda. Ou seja, conforme a startup vai realizando as reformas, os recebíveis das parcelas futuras são antecipados e os empreendedores contam com esse dinheiro como capital de giro. Outra inovação nesse tipo de operação é que, nos cinco primeiros anos, o valor é totalmente reinvestido. 

Retorno

De acordo com Gorini, a expectativa é que os R$ 5 milhões sejam transformados em R$ 40 milhões ao longo do prazo da operação. Isso porque os empreendedores vão recebendo mensalmente as parcelas das famílias e mais o capital dos investidores, que não têm retorno financeiro no período inicial de cinco anos. Como essa debênture de impacto social pioneira tem prazo de 10 anos, será nos últimos cinco que o retorno financeiro irá para os investidores por meio de uma taxa de juros de 7% ao ano.

Além disso, quem realizou o aporte nesse modelo será recompensado com um retorno maior se algumas métricas como número de famílias atingidas e taxa de inadimplência controlada forem atingidas. Ou seja, se a performance da startup for positiva, o impacto social virá ao beneficiar mais famílias e, para os investidores, o retorno poderá chegar a 9,5% ao ano. 

Até o momento o Programa Vivenda já realizou mais de 500 obras em seus quatro anos de operação e a taxa de inadimplência está abaixo de 1%. 

Para o também sócio da Din4mo Haroldo Torres, esse aporte é atraente pois atrai dois tipos de investidores: "o filantrópico, que aceita correr mais riscos, e o convencional, que está interessado em causar impacto mas sem correr muitos riscos".

Interesse público

Quem liderou a parte jurídica nessa primeira debênture de impacto social no Brasil foi Alexei Bonamin, sócio da área de Mercado de Capitais do escritório TozziniFreire. Ele acredita que o potencial para futuros negócios de perfil semelhante é grande. "É irreversível, até por conta dos millenials que não querem apenas retorno financeiro", diz. 

Alexei Bonamin, sócio da área de Mercado de Capitais do TozziniFreire

Ele explica que não é necessária uma regulamentação adicional para essa modalidade, já que está prevista pela oferta (?) 476 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Embora queira oferecer futuras debêntures de impacto para qualquer investidor interessado, Bonamin diz que essa primeira oferta estava restrita a investidores profissionais (ou qualificados?), com mais de R$ 10 milhões investidos. 

Gorini, da Din4mo, defende que esse tipo de aporte vai impulsionar as startups de impacto social no Brasil. "Serve para qualquer empresa que precisa antecipar recebíveis. Isso é comum quando [a empresa] tem um produto de R$ 4 mil ou R$ 5 mil e precisa parcelar para o público de classe baixa", diz. 

Ele diz que já foi procurado por outras gestoras de investimento interessadas em entender melhor esse modelo e até mesmo por grandes bancos, como Santander e Bradesco. No caso do Vivenda, apenas os investidores do Itaú Private Bank puderam participar, além de outros players como o Fundo Zona Leste Sustentável.