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SÃO PAULO - Na primeira semana de 2018 aconteceu a principal notícia para o ecossistema empreendedor brasileiro dos últimos anos. A operação da 99 (antiga 99Táxis) foi comprada pela chinesa Didi Chuxing. Os valores não foram confirmados, mas é certo que a empresa foi avaliada em pelo menos US$ 1 bilhão, um marco até então não atingido por nenhuma startup brasileira.

Companhias de base tecnológica avaliadas em mais de US$ 1 bi são chamadas de unicórnios. Há cerca de 230 delas pelo mundo, mas até então nenhuma no Brasil.

Enquanto países vizinhos já contavam com seus unicórnios, como Argentina (Decolar.com e Mercado Livre) e Colômbia (Life Miles), o Brasil vivia a expectativa de poder se juntar a esse grupo e se consolidar no cenário global de empreendedorismo. Agora a 99 pode ser vista em listas do mundo inteiro como uma dessas bem sucedidas startups. Mas o que isso muda para o mercado empreendedor brasileiro?

Muita coisa, dizem os especialistas. Para eles, todo o mercado ganha com a notícia. Primeiro pela inspiração, já que a 99 foi fundada há apenas seis anos por três sócios então recém-formados em Engenharia. Ou seja, a empresa de compartilhamento de carros foi crescendo com jovens comuns e outros empreendedores podem se espelhar nesse exemplo.

A coordenadora do Centro de Empreendedorismo da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), Alessandra Andrade, avalia que a atual juventude é muito inconformada, no sentido de querer algo diferente - se essa alternativa não está disponível, eles criam empresas para atender a necessidade que enxergam.

“O case da 99 também é positivo porque traz discussões mais próximas aos estudantes, que antes tinham que recorrer a exemplos internacionais para debater sobre as startups unicórnios”, diz.

Mais dinheiro no mercado

Para os investidores, a notícia também é boa. “Era questão de tempo aparecer um unicórnio, mas a venda da 99 é importante porque prova que existe mercado no Brasil para as startups chegarem nesse valor”, diz um dos fundadores do site de comparação de preços Buscapé e investidor, Rodrigo Borges.

Assim como diversos jovens que venderam suas empresas (o Buscapé foi comprado pelo grupo sul-africano Naspers por mais de US$ 300 milhões em 2009), Borges hoje investe em startups. Junto com outros empreendedores, a Domo Invest lançou um fundo de R$ 100 milhões para fazer aportes em cerca de 20 startups.

Além de aceleradoras que investem em empreendedores, há diversos fundos de investimento com foco em startups, como os estrangeiros Accel Partners e Kaszek Ventures e os nacionais Bossa Nova, Innova Capital e Monashees, que foi o único investidor brasileiro na 99 nos aportes iniciais, o chamado investimento semente.

No mercado internacional a notícia também repercute bem, por ser um fato positivo em meio ao noticiário sobre crise econômica e escândalos políticos.

A própria crise não impede que oportunidades continuem surgindo - e pode até colaborar para isso. “As pessoas não deixam de viver. Elas comem, se transportam, buscam entretenimento e aí aparecem as novas tecnologias para atender essa demanda de uma forma melhor e/ou mais barata”, diz Borges.

Cuidados

Outras startups brasileiras já estão a caminho de se tornar unicórnios, como a de serviços financeiros Nubank, a companhia de aplicativos Movile e a empresa de segurança PSafe. No entanto, a busca cega por alcançar o valor de US$ 1 bilhão pode ser prejudicial.

De acordo com o fundador do fundo Brazil Venture Capital, Mitsuru Nakayama, alguns empreendedores podem se decepcionar ao pensar que sua empresa vale muito mais do que o mercado avalia.

Apesar de citar outras companhias, como a Movile, que devem se tornar unicórnios em breve, Nakayama alerta que esse mercado é de risco para o investidor. “Muitos amadores podem entrar no mercado achando que o retorno é fácil”, diz.

Mesmo liderando a Movile e com a possibilidade de se consolidar como um unicórnio em breve, o empreendedor Fabricio Bloisi alertou que o empreendedor brasileiro pensa pequeno. De acordo com ele, o País dispõe de potencial para ter startups com valores semelhantes aos de grandes companhias globais como o Airbnb e o Uber, avaliadas em mais de R$ 100 bilhões.