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Uma mistura de financiamento coletivo (crowdfunding) só para negócios e investimento anjo. Assim funciona a Firgun, plataforma que permite a empreendedores captar crédito enquanto remunera o investidor com taxas de retorno de até 12% ao ano.

Diferente das plataformas de crowdfunding que levantam recursos para shows e outros projetos culturais, a Firgun é voltada exclusivamente para o financiamento de negócios. E, apesar de oferecer a investidores a oportunidade de apoiar uma empresa nascente, o modelo não oferece participação societária no negócio, como acontece no chamado equity crowdfunding. 

Lemuel Simis, que já havia atuado em ONGs e empresas de impacto social, e seu amigo engenheiro Fabio Takara decidiram fundar a Firgun no fim de 2016. A plataforma foi inspirada na Kiva, startup norte-americana que já intermediou mais de US$ 1,2 bilhão em empréstimos sem juros para empreendedores em mais de 80 países.

Para replicar a ideia no Brasil de forma acessível, Simis decidiu limitar as taxas de juros cobradas nas operações e, ao mesmo tempo, oferecer uma rentabilidade que possa ser considerada atraente pelo investidor pessoa física.

Para isso, o empreendedor invocou a chamada lei da usura, que define como ilegal a cobrança de juros anuais superiores ao dobro da taxa Selic ao ano. Assim, o custo para o tomador do empréstimo na plataforma é menor do que o cobrado normalmente por instituições como bancos, que não têm essa limitação. Na outra ponta, quem apoia os projetos apresentados na Firgun pode ter um retorno maior do que o oferecido em aplicações de renda fixa atreladas à Selic.

Há ainda outra diferença em relação às demais plataformas. O empreendedor não pode cadastrar seu projeto para levantar capital – quem vai atrás dessas empresas é a própria Firgun. Para isso, a plataforma conta com parceiros que fazem as indicações de startups de impacto social que podem e dever receber financiamentos.

Entre os parceiros da plataforma estão A Banca, aceleradora de negócios sociais periféricos do Capão Redondo, bairro da zona sul de São Paulo, e a Empreende Aí, que promove cursos de empreendedorismo no Jardim São Luis, também na zona sul da capital paulista.

As startups são indicadas por esses parceiros e então informam seus dados, que são avaliados pela plataforma. Simis explica que a seleção leva em conta os conhecimentos financeiros básicos do empreendedor, além do apetite a risco. Além disso, são exigidos documentos para comprovar o faturamento dos últimos três meses da empresa. Após esse processo a Firgun aplica uma nota de risco para avaliar o montante que o empreendedor pode captar.

Os valores de captação vão de R$ 3 mil até R$ 15 mil. No caso do valor mínimo, o empreendedor não tem juros ao devolver o montante. De R$ 3 mil até R$ 9 mil, o custo do financiamento é de 0,5% ao mês para o tomador. Na faixa mais alta, até R$ 15 mil, a taxa é de 1% ao mês. O prazo para pagamento é de 10 meses no caso do menor valor e de até 24 meses nas captações maiores.

A ideia da startup é se posicionar de forma oposta à dos bancos tradicionais. “Queremos inverter a lógica que beneficia quem tem mais dinheiro, que paga menores taxas (ao tomar um empréstimo)”, explica Simis.

De acordo com o fundador da Firgun, dois tipos de pessoas apoiam os microempreendedores. “Há aqueles que estão acostumados a doar e não ter retorno, e há também os investidores tradicionais, que estão dispostos a diversificar seu portfolio para promover impacto social.” Como diferencial, ele diz que o investidor sabe exatamente para onde foi o seu dinheiro e o impacto gerado. É possível fazer aportes a partir de R$ 25.

Com um ano de operação, a startup já finalizou 12 captações, totalizando cerca de R$ 150 mil e envolvendo quase 200 investidores. Até o momento todos os pagamentos estão sendo honrados, ou seja, a taxa de inadimplência é zero.

Um exemplo do impacto gerado é o projeto do empreendedor Ermevaldo Santos, dono de uma quitanda no bairro de Pirituba, zona norte de São Paulo. Ele levantou R$ 3 mil para ter fluxo de caixa e deixar de pegar empréstimo com um agiota, como fazia até então.

Reconhecimento

Em seu primeiro ano de atuação a Firgun foi escolhida pela Social Good Brasil para ser acelerada. A SGB é uma organização que promove o uso de tecnologias para gerar impacto social.

Em agosto de 2017 a startup recebeu o prêmio da iniciativa Incluir, organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Entre mais de 850 organizações inscritas, a Firgun foi premiada na categoria Ideia Inovadora. O prêmio é destinado a quem desenvolve projetos de impacto social alinhados com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.