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A startup paulistana Green Platforms desenvolveu a PlataformaVerde, um software em nuvem que usa a tecnologia blockchain para gerenciar resíduos sólidos de vários setores da economia. Com a ferramenta é possível rastrear a sobra ou rejeito de um material desde sua geração até o destino final, o que colabora para a confiança entre as empresas envolvidas e a gestão ambiental, com potencial para reduzir custos.

Isso é possível porque a tecnologia que se popularizou com as criptomoedas permite eliminar intermediários, ao conectar de forma direta pessoas ou empresas que querem efetuar transações. O blockchain assegura a integridade de dados nas operações e pode ser aplicado a outras áreas além das finanças.

No caso da PlataformaVerde, isso proporciona a conexão entre todos os elos da cadeia, em tempo real. Os geradores de resíduos, como indústrias, construtoras, prestadoras de serviços de saúde e fazendas, cadastram no software os dados do material – quantidade e características de composição, por exemplo.

A partir daí os dados são compartilhados e confirmados pelo restante da cadeia, que são transportadoras, empresas de reaproveitamento e administradoras de áreas de descarte. Cada participante adiciona seus dados de forma a reforçar a segurança das informações, que não podem ser copiadas, substituídas ou alteradas indevidamente.

A startup começou a operar em janeiro de 2017, tendo a montadora de veículos Renault como primeira cliente. Hoje, 1.300 empresas utilizam a plataforma, entre elas a varejista Riachuelo e a fabricante de caminhões Scania.

A empresa cobra um valor mensal pela utilização do software, que vai de R$ 249 a R$ 2.499. A variação depende do módulo em que a empresa se encaixa: se é geradora, transportadora ou administradora do destino final dos resíduos. A última ponta tem o custo mais caro, já que necessita de uma quantidade maior de informação.

Com um investimento de R$ 2 milhões do próprio fundador, a startup faturou R$ 1,8 milhão no primeiro ano de operação. A projeção para 2018, com a adesão de novos clientes, é triplicar o valor. 

Segurança

A diferença em relação a outras empresas que também fazem  monitoramento de sobras de produção e outros materiais, como a VG Resíduos e a Destine Já, é exatamente o uso de blockchain.

Um dos benefícios da tecnologia é a transparência das informações. Com a conexão entre todos os membros da rede, é possível saber o que acontece em cada etapa dos processos de geração, coleta e tratamento, evitando, por exemplo, o uso de áreas de descarte não autorizado e aterros irregulares. Os clientes entram em contato direto com quem transporta e trata os resíduos, sem a necessidade de intermediários.

Segundo o CEO da startup, Chicko Sousa, é por isso que a empresa tem uma carteira ampla de clientes, atendendo os geradores e a cadeia de eliminação de resíduos. Para ele, a segurança das informações cadastradas e geradas é o maior destaque. Com o blockchain, as informações são permanentes, nada se perde.

Sousa, da Green Platforms: segurança das informações é destaque da tecnologia blockchain

O fato de ser baseada nessa tecnologia permite que milhares de computadores acessem o sistema simultaneamente. Assim, quando muitos ou todos os clientes da startup utilizarem o software ao mesmo tempo, ele não vai travar ou dar problemas.

Além disso, uma geradora ou transportadora de resíduos que já é cliente da plataforma pode convidar por meio do software outras empresas que tenham interesse em participar do sistema. Cabe às companhias convidadas aceitarem ou não contratar os serviços.

“Nós não precisamos de uma equipe comercial, por exemplo. Um cliente vai convidando o outro [pelo software] e essa é a nossa venda. Hoje, na nossa base de dados, temos cerca de 22 mil empresas convidadas para se tornarem clientes”, diz Sousa.

Demanda

O empreendedor afirma que a iniciativa de usar o blockchain em uma plataforma com fins ambientais surgiu porque as próprias geradoras de resíduos solicitam esse tipo de solução. A empresa ainda é uma das poucas a utilizar essa tecnologia no segmento. Por isso, em junho de 2018, foi considerada uma das startups mais inovadoras do mundo pelo Fórum Econômico Mundial.

Segundo o presidente da comissão de empreendedorismo e startups da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Pinheiros e especialista em blockchain pela Universidade de Oxford, Rodrigo Borges, o uso da tecnologia fora do segmento financeiro ou de criptomoedas ainda é algo muito novo e há potencial de expansão nos próximos anos.

“Empresas de diversos setores têm buscado conhecer a novidade [blockchain]. Acredito que em um futuro próximo vamos ter uma difusão grande”, diz Borges.