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De um lado, o aproveitamento de resíduos industriais e agrícolas que seriam descartados sem uso. Do outro, o impacto ambiental positivo obtido com a aplicação desse material na contenção de vazamentos de petróleo e na melhoria do cultivo de flores. A startup Biosolvit trabalha em ambas as pontas.

A empresa carioca atua com duas marcas. A Bioblue utiliza principalmente material sintético –resíduos gerados pela indústria de derivados de petróleo, como plástico – para fazer barreiras de contenção e mantas de absorção de óleo. O reaproveitamento das sobras ou rejeitos reduz o dano causado por acidentes, como um vazamento no mar, durante o processo de extração, ou em terra, durante o transporte.

A outra marca, Biogreen, utiliza resíduos orgânicos para fazer biofertilizantes e outros produtos para o cultivo de flores. A partir de restos de palmeiras cultivadas para produção de palmito, a startup desenvolveu substratos e nutrientes para orquídeas e bromélias. Com as fibras, faz ainda vasos orgânicos que são uma alternativa aos suportes de xaxim de samambaiaçu, cuja comercialização foi proibida por se tratar de espécie da Mata Atlântica em risco de extinção.

Ao ver o desperdício de material orgânico nas plantações de palmito, o CEO da companhia, Guilhermo Queiroz, teve a ideia de aproveitar os resíduos do caule da palmeira. Visando este mercado, ele e seu sócio Wagner Florentino fundaram a startup de pesquisa e desenvolvimento em 2014.

Hoje, as fibras de palmeira são usadas nos produtos das duas marcas. A Bioblue oferece a linha de produtos sintética, com os itens fabricados a partir de resíduos industriais, e também uma natural, com peças feitas das sobras da produção de palmito. São cerca de 40 produtos atualmente.

A Biogreen, que só usa resíduos orgânicos, tem como público-alvo pessoas físicas, que podem comprar os produtos por meio de lojas e supermercados parceiros, como o Carrefour. Os itens são comercializados no Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Tocantins, Bahia e Amazonas.

Petróleo

Hoje, só com a marca para absorção de petróleo, a Biosolvit tem clientes no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Maranhão e Minas Gerais. Entre as empresas que utilizam a tecnologia estão a mineradora Vale e a Petrobras.

Além de evitar que o vazamento de petróleo se espalhe, os produtos permitem o reaproveitamento de cerca de 95% do que é absorvido. Ou seja, o conteúdo volta para a refinaria.

As mantas e barreiras de contenção da empresa podem ser usadas ainda para a remoção de óleos e combustíveis de avenidas e pistas de aeroportos. E também para limpeza de equipamentos e oficinas.

Queiroz diz que, no segmento de petróleo, a startup tem entre 30 e 40 clientes. Isso porque os contratos podem ser periódicos, por cerca de um ano, como é o caso da Vale, ou para compras esporádicas, como faz a Petrobras. A startup cobra somente pelos produtos efetivamente vendidos – não há uma mensalidade para os contratantes. “Eles [clientes] solicitam os produtos quando necessitam e me dão autorização de entrega”, diz.

Desempenho

De janeiro a outubro de 2018, a startup faturou cerca de R$ 900 mil. A projeção para 2019 é atingir a cifra aproximada de R$ 3,6 milhões. Isso porque, além da produção concentrada hoje no Rio de Janeiro, a companhia pretende inaugurar outra fábrica em dezembro. Com sede em Porto Belo (SC), a nova planta deve começar a operar em janeiro de 2019.

Desde a sua fundação, a startup recebeu cerca de R$ 4,3 milhões em investimentos. Em 2018, ganhou um novo sócio, Edson Fantini. O empresário tem uma fábrica de beneficiamento de palmito e fornece os resíduos para a produção das duas marcas da Biosolvit.

Em abril, a startup foi selecionada pelo Conecta, programa de inovação da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e do BMG Up Tech, braço do grupo BMG. Além disso, recebeu um aporte da gestora de investimentos Bossa Nova em troca de uma participação societária (equity). Os valores não foram revelados.

Ainda em 2018, a startup deve participar do ciclo de Lisboa do StartOut Brasil, programa de inserção internacional promovido pela Apex-Brasil e outras instituições. Neste ano, a Biosolvit já entrou no ranking 100 Open Startups Brasil e foi selecionada para o Startup World Cup 2019, competição mundial em que a vencedora pode ganhar US$ 1 milhão.

Queiroz diz que há a expectativa de que as marcas se tornem empresas independentes. “Fizemos essa separação [de marcas] em 2017. Isso nos torna mais preparados caso tenhamos que fazer spin-offs”, diz, utilizando o jargão de quando uma área de negócios se torna independente da empresa-mãe. “Acho que a Bioblue e a Biogreen têm potencial para isso”, avalia.