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(Texto atualizado em 29/08 para correção. Entre os produtos da MindMiners, o Compass funciona como autosserviço e o Insight é a versão mais completa, e não o contrário. Segue a íntegra corrigida.) 

A premissa de várias startups surgidas recentemente para atuar com pesquisas de mercado é semelhante: utilizar a tecnologia para ganhar eficiência na coleta de dados e na análise das informações, de forma a tornar todo o processo mais rápido, barato e eficiente. Para oferecer levantamentos acessíveis a pequenas e médias empresas, as novatas apostam em inovação e no ambiente digital.  

É o caso do Opinion Box, que nasceu como um produto digital da mineira Expertise Pesquisas e  ganhou fôlego próprio, a ponto de se separar do negócio principal em 2013 para focar nos clientes de pequeno porte. “Percebemos que a pesquisa de forma geral estava lenta e cara. As grandes empresas queriam inovação nessa área e as pequenas queriam algo barato”, explica Christian Reed, CEO da startup.

Exemplo de tela do Opinion Box: pesquisas a partir de R$ 200 

A empresa oferece dois produtos: pesquisas customizadas e plataforma de pesquisa. A diferença está no custo e na complexidade do levantamento.

Na versão customizada, a startup desenvolve o projeto e entrega um relatório mais completo com a análise das respostas. O estudo é complexo porque a sequência de perguntas varia de acordo com as respostas. Embora já tenha feito projetos de R$ 200 mil, o tíquete médio nesse modelo fica entre R$ 5 mil e R$ 20 mil.

Na versão chamada de plataforma de pesquisa, a startup disponibiliza sua ferramenta e os próprios clientes ficam responsáveis pela criação do levantamento e pela análise dos resultados obtidos. O valor mínimo é de R$ 200 e o tíquete médio fica em torno de R$ 1 mil.

O Opinion Box só oferece pesquisas quantitativas, ou seja, baseadas na análise estatística, sem questões qualitativas (que envolvem avaliações subjetivas), e limita a coleta de dados ao ambiente digital, sem atuação in loco. Assim, opera com baixo custo e o resultado dos levantamentos é rápido. O CEO afirma que em até dez dias qualquer pesquisa é finalizada. Na versão plataforma, a média dos projetos é de três dias, diz. 

As respostas são obtidas por meio de um painel de respondentes do Opinion Box, que conta com 150 mil consumidores ativos. Essas pessoas recebem micro recompensas para responder os questionários, como pontos em programas de fidelidade ou crédito para telefone celular.

Troca de ideias

Foi também de olho no ambiente digital que surgiu a paulistana MindMiners. Dois dos fundadores, Renato Chu e Lucas Melo, estudaram o mercado e lançaram a startup em 2014 com um modelo diferente. Para driblar o alto custo e a demora decorrentes da complexidade de coletar a opinião das pessoas da forma tradicional, eles criaram uma rede social.

Por meio da plataforma MeSeems, os usuários compartilham suas opiniões sobre produtos e marcas. Assim como o Opinion Box, a MindMiners ganhou popularidade entre consumidores por oferecer recompensas. Em julho, mais de 100 mil usuários acessaram o aplicativo MeSeems, conta Chu, CEO da empresa.

Para obter respostas somente de um determinado público, o aplicativo separa os respondentes por grupos de interesse, como cinéfilos ou amantes de cerveja artesanal, por exemplo.

Ao observar o alto engajamento na plataforma, os empreendedores criaram dois produtos para oferecer às empresas.

O Miners Compass funciona como um autosserviço, já que as pesquisas são realizadas pelos próprios clientes da startup por meio da plataforma. As empresas criam as questões e recebem as análises por meio de relatórios automáticos. O valor dos levantamentos fica na faixa de R$ 5 mil.

O Insight é mais completo, e com preço mais elevado, pois conta com a equipe da startup para atuar no procedimento. “Assessoramos todo o processo de construção da pesquisa, desde a definição do problema e escolha da melhor metodologia até o desenvolvimento do projeto, captação das respostas e análise”, diz Chu.

De acordo com o CEO, um dos atrativos é a agilidade. “A gente entrega os resultados em menos de uma semana. Nos projetos pela plataforma [Insights] o prazo tem sido, em média, um dia e meio”, afirma.

A startup planeja faturar R$ 10 milhões neste ano, ante R$ 6 milhões em 2017.

Em campo

Embora o ambiente digital seja o foco das startups de pesquisa, algumas também atuam em campo, como a Lean Survey, que tem como diferencial a coleta de dados in loco, com registro das informações por meio de smartphone.

A startup tem como pesquisadores pessoas comuns que se cadastram em troca de recompensas financeiras. A empresa com sede em São Paulo atua em todo o País, já que conta com mais de 18 mil pesquisadores em cerca de 1.500 cidades.

Esses “colaboradores” fazem as perguntas na rua e registram todo o processo de coleta em áudio. Eles são treinados por uma equipe da Lean Survey, que controla a qualidade por meio do próprio áudio e da localização dos pesquisadores. “Dá para saber se eles estão lendo do jeito certo e se realmente estão no local”, diz Alessandro Andrade, CEO da startup.

Assim, mesmo ao coletar dados in loco, como no modelo tradicional de grandes institutos, a startup usa tecnologia em todas as etapas: no treinamento dos pesquisadores, no monitoramento do processo, no registro das informações e no tratamento dos dados.

O registro de dados no smartphone dispensa formulários em papel, o que colabora para evitar erros e acelerar a consolidação das informações.  

Andrade diz que a Lean Survey quer se posicionar como solucionadora em situações mais complexas. Em alguns casos, o levantamento pode nem envolver o consumidor final. Ele cita como exemplo dados que podem ser mensurados na área de bebidas e gerar insights relevantes para empresas do setor.

“A gente estima quantas embalagens são perdidas ao longo da cadeia de distribuição, desde o momento em que o produto chega ao caminhão até ir para as lojas e mercados”, diz. Com a atuação dos pesquisadores ao longo da cadeia de distribuição, a startup consegue quantificar o número de garrafas que estouram e as que se perdem ao cair do veículo, entre outros dados. Ao final dos projetos, relatórios apresentam análises e sugestões para os clientes. 

A startup também faz pesquisas baseadas em questionários para empresas que querem lançar um novo serviço ou mudar a embalagem de um produto. 

Com tíquete médio entre R$ 50 mil e R$ 70 mil, a Lean Survey se apresenta como uma opção mais barata em comparação com grandes institutos de pesquisa.

Adaptação

Diretor executivo corporativo do Ibope Inteligência, Cristiano Varjão conta que o tradicional instituto também desenvolveu produtos para pequenas e médias empresas. Um deles é o Ibope Conecta, que atua desde 2010 como um braço online do Ibope Inteligência.

Com mais de 800 mil pessoas cadastradas na base de respondentes, o Conecta, assim como fazem as startups, funciona como uma plataforma para as próprias empresas contratantes fazerem os questionários e direcionarem as perguntas ao público desejado. Ao final, o Ibope entrega os resultados e faz uma rápida conclusão. Essas pesquisas custam a partir de R$ 4 mil.

Mais de 300 empresas já contrataram os serviços da Conecta, a maior parte de pequeno porte. Para as empresas de médio porte, o Ibope lançou um produto adaptando o preço para aliar as pesquisas de rua com o orçamento desse tipo de companhia.

Chamada de Bus, é uma pesquisa coletiva para os clientes, como fazem outros grandes institutos. Nesse modelo, até 40 perguntas são divididas entre as empresas. A amostra é nacional, com cerca de 2 mil entrevistas face a face, nas ruas, em mais de 130 municípios. Cada pergunta custa cerca de R$ 9 mil. “Centenas de empresas já nos contrataram neste modelo”, diz Varjão. 

De acordo com o executivo, o Ibope apresenta um relatório completo para seus clientes após a apuração, contendo até mesmo dicas. Segundo ele, uma pesquisa de uma única empresa nesse molde custaria em torno de R$ 250 mil, ao invés de R$ 40 mil no caso de quatro perguntas.

Questionado sobre a concorrência das startups, Varjão pondera. “Acho que é outro nicho, porque essa área de pesquisas é muito ampla. No caso do Conecta, porém, até pelo preço acessível a gente concorre um pouco.”