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O mercado externo é cada vez mais atraente para as franquias brasileiras, especialmente num período marcado pela mais forte recessão econômica da história do País.

O aumento do número de brasileiros que resolveram mudar de país por conta da crise, e que veem na franquia uma oportunidade de mudar sem ter que se preocupar em procurar emprego, é um dos motivos que impulsionou o segmento no ano passado, mas não é o único e nem o mais importante, pondera Paulo Ancona, sócio-diretor da Ancona Consultoria, especializada em gestão de negócios e franchising. Para ele, um dos principais fatores que colabora para a internacionalização das redes nacionais é a alta qualidade do franchising nacional. “O setor de franquia está se tornado, a cada ano, muito bem profissionalizado e organizado, em termos de visão internacional, o que o torna extremamente atrativo. É possível, inclusive, afirmar que, o sistema brasileiro é superior a muitos outros existentes pelo mundo, até mesmo de países europeus”, comenta Ancona.

Altino Cristofoletti Junior, presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF) também reforça a pujança do setor desenvolvido no Brasil. “O franchising não representa apenas um canal de vendas. É uma plataforma completa de gestão de negócios de forma colaborativa, que pode ser desenvolvida por meio de diferentes canais”, diz. Os números corroboram o protagonismo do Brasil no mercado internacional: de acordo com o ranking do World Franchising Council, o Brasil mantém a 4ª colocação em número de redes e a 6ª posição em número de unidades de franquias.

Outro dado que ilustra o avanço da internacionalização das redes nacionais é o crescimento da presença das marcas made in Brazil em outros países: no ano passado, passou de 80 para 100 nações. No período, 142 redes de franquias nacionais atuavam no exterior; 129 possuíam operações físicas em outros países e 18 redes exportavam ou distribuíam produtos em mercados estrangeiros.

A pesquisa da ABF mostrou que as redes nacionais continuam avançando na internacionalização. “Nós oferecemos isso com um know-how de transferência muito acima do que eles têm lá fora. Além do número de produtos e serviços que temos para oferecer, há toda a profissionalização do nosso setor”, analisa.

Mas, é preciso cuidado para iniciar a empreitada, recomenda Ancona. “É necessário fazer estudo detalhado das opções do mercado para o qual se quer expandir, não apenas para entender a parte burocrática, mas, para identificar o perfil de compra do novo público”, recomenda o especialista.

Novos ares

A internacionalização das marcas Cheirin Bão, BeautyB e Depile-se ganhou a Europa principalmente por conta de brasileiros que resolveram fugir da crise no Brasil indo morar em Portugal. “A procura por nossas marcas já existia há muitos anos, mas não existia uma leva de pessoas tão preparadas quanto passou a existir a partir de 2017”, explica Wilton Bezerra, diretor das marcas. ”Desde o ano passado, o perfil do brasileiro que está indo morar fora já é o de alguém que está acostumado com negócios. Ele não está indo para procurar um trabalho, mas para empreender. E isso passa a ser uma via de mão dupla: ele conhece e confia na nossa marca, por isso quer levar um produto que ele acredita para trabalhar lá fora, e nós podemos apoiá-lo nesta ida e temos a possibilidade de experimentar novos serviços e novos negócios em outros países. Isso ainda nos permite trazer produtos de lá para cá, e experiências que vamos adquirindo”, diz Bezerra.

Com a marca Cheirin Bão, que comercializa o café brasileiro, a rede abriu suas duas primeiras unidades no exterior em Portugal, no final do ano passado. Já com as marcas de estética, a rede está inaugurando duas unidades na Espanha. Para dar suporte aos franqueados, a rede abriu um escritório administrativo em Lisboa. “Para facilitar todo o processo de implantação dos negócios lá. E também porque Portugal, além da facilidade da língua, tem se tornado destino queridinho da Europa por conta do clima, o que tem transformado o país em uma capital mundial de turismo hoje”, explica o diretor.

Mas nem tudo são flores, explica Bezerra: “ O que se pensa em retorno, ponto de equilíbrio, lucratividade é bem diferente do que se tem aqui. Lá, as margens de lucros são menores. Enquanto no Brasil é possível encontrar franquias dando retorno em 10 ou 12 meses, na Europa, normalmente demora mais tempo. Porém, lá há estabilidade econômica muito boa e a carga tributária é organizada”, diz. Além disso, recomenda o diretor, “é preciso estudar, entender o comportamento do público local, quais são os hábitos de consumo e seu pensamento. Não se deve esquecer que, outro país é outra cultura”.

Parceria antiga

Já a Calçados Bibi, que também iniciou seu processo de internacionalização no ano passado, optou por romper as fronteiras com um parceiro que já trabalhava com os produtos da marca no Peru. A Bibi é uma marca que existe desde 1949 e exporta desde a década de 70. Hoje são mais de 60 países que recebem os nossos produtos. E foi justamente um cliente que revendia os produtos da empresa desde o ano 2000 em uma loja de multimarcas que foi o escolhido para iniciar esse processo.

“Abrimos a primeira loja em setembro e outra em dezembro de 2017, em Lima, no Peru. Nossa estratégia foi unir forças com alguém que já conhece a nossa marca, que entendem o nosso posicionamento, que já tem relacionamento com a nossa empresa e conhece nosso mix de produtos”, explica Andrea Kohlrausch, diretora de Varejo da calçados Bibi .

“Acreditamos que o processo seja mais facilitado, nesta forma, porque supre as duas pontas: o parceiro já conhece e confia no produto, e em troca nos passa todo o know-how sobre o mercado local”, complementa a diretora da rede.

“O que tivemos que fazer foi os ajustes de marketing local, calendário promocional para a região, e questões mais focadas para o gosto e a cultura peruana. Não tivemos que nos preocupar em criar um mercado para o nosso produto, porque esta questão já estava sendo testada há bastante tempo, o que deixou o processo todo muito mais facilitado para nós”, comenta a diretora da marca de calçados.

Mesmo com pouco tempo de início da primeira operação, é possível dizer que a parceria tem dado certo. A diretora adianta que deve abrir novas unidades da rede no Peru ainda este ano. Outros destinos também estão sendo estudados. “Temos um planejamento de expansão para abrir mais lojas com este parceiro. E estamos atuando, da mesma forma, já com negociações com alguns outros shoppings na América Latina e com parceiros com este mesmo perfil do Peru. Não estamos divulgando quais são os outros países. Mas, estamos negociando”, adianta. Para ela, esa ação vem para ajudar a fortalecer mais a marca, para que o consumidor tenha uma experiência diferente.