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Diante de uma possível retomada da economia no próximo ano, a expectativa de mais emissões de títulos de dívida corporativa (debêntures) no mercado de capitais doméstico aumenta, mesmo após o recorde já alcançado em 2018.

De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a captação de recursos via debêntures nos dez meses fechados deste ano já alcançou R$ 123,4 bilhões, volume 27% superior ao volume histórico de R$ 96,6 bilhões de 2017.

Segundo a pesquisa Agenda 2019 divulgada ontem pela consultoria Deloitte feita com 826 empresas, cujas receitas anuais totalizam R$ 2,5 trilhões (43% do PIB), 70% das consultadas responderam que pretendem captar recursos para o próximo ano, e dessas 6% devem emitir títulos de dívida, e 1% (10 empresas) via abertura de capital na bolsa de valores (IPOs).

“Nunca as empresas captaram tanto em debêntures e a juros tão baixos, mesmo com toda essa indefinição política que tivemos até outubro. A expectativa para 2019 é muito boa e deve atrair recursos também em ofertas de ações (IPOs e follow-ons)”, aponta o professor da faculdade Fipecafi, Marcelo Cambria.

Para a sócia do escritório Guimarães & Lopes Martins, Bianca Meres Silva Theer, as empresas estão optando pelo mercado de capitais por três motivos: a esperada retomada da economia em 2019; a dificuldade de encontrar crédito a um custo razoável no sistema bancário; e os juros de um dígito (menos de 10% ao ano) nas debêntures.

“Os juros nos bancos são inviáveis para investimentos. As empresas operaram com muitas dificuldades. Temos daqui para frente um cenário de que o dinheiro não custe tão caro. As empresas observam uma perspectiva de recuperação e devem desengavetar seus projetos”, acredita Bianca Meres.

Ela apontou que o setor de tecnologia é um dos segmentos seguir investindo e buscando novas formas de captação. “No geral, as empresas iniciaram um movimento de desengavetar projetos”, afirmou.

Na visão da sócia do departamento imobiliário e financeiro do escritório Felsberg Advogados, Fernanda Amaral, o aumento da captação em 2018 teve muito a ver com a baixa taxa de juros. “Para o próximo ano, há muita oferta represada e promete ser muito melhor”, diz a sócia.

Ela contou que todas as casas de investimentos estão se movimentando para operações com debêntures de infraestrutura, certificados de recebíveis (CRI), certificados de recebíveis do agronegócio (CRA); títulos privados com incentivos fiscais. “Os juros estão num patamar atrativo para empresas e investidores”, diz.

De fato, segundo os dados da Anbima, na média dos últimos 12 meses até final de outubro, o custo para companhias abertas que emitiram debêntures ficou em 6,89%, ou 105,3% do DI, enquanto o juro médio do DI esteve em 6,55%.

Para efeito de comparação, em 2017, quando o juro médio do DI fechou em 9,94% no ano, as debêntures tiveram custo anual de 10,55% (106,2%).

Se comparado com os bons anos de 2012 e 2013, quando as debêntures competiam com os juros subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e a Selic estava nas mínimas (7,25% ao ano) do governo expansionista de crédito de Dilma Rousseff, as taxas atuais praticadas estão menores.

Em 2012, o DI médio havia ficado em 8,4% ao ano, e os títulos de dívida privada pagavam 8,86% (105,5% do D); e em 2013, quando o DI médio esteve em 8,06% ao ano, as debêntures registraram remuneração de 8,35% (103,6%).

Vale lembrar que, no passado dos juros subsidiados do BNDES, o mercado avaliava como insustentável a matriz econômica do governo Dilma Rousseff, situação completamente diversa da atual.

“Não dá para afirmar que todas as expectativas positivas vão se confirmar, mas temos um ambiente econômico de melhora se tivermos o ajuste fiscal e a reforma da Previdência”, diferencia Bianca Meres.

Riscos no horizonte

Ao longo do próximo exercício, a expectativa do mercado (Pesquisa Focus do Banco Central) é que os juros básicos da economia (Selic) devem subir para 8% ao ano até o final de dezembro de 2019, mas num patamar considerado “saudável” para o mercado de capitais.

Em termos de riscos, há uma preocupação sobre o programa de retirada de incentivos fiscais que ainda será detalhado pelo próximo ministro da economia, Paulo Guedes.

“Existe um risco do governo discutir a retirada de incentivos. Isso já foi tentado no passado recente [2015] com vários rumores de se retirar a isenção fiscal de CRIs, CRAs, LCIs, LCAs que retornam recursos para o agronegócio e o setor imobiliário”, disse Fernanda.