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As provisões feitas pelas instituições financeiras (bancos) para cobrir eventuais perdas com devedores recuaram e devem ficar entre R$ 75 bilhões e R$ 80 bilhões em 2018.

Se confirmada essa expectativa, será uma redução significativa em relação aos montantes provisionados em 2017 (R$ 92 bilhões) e junho de 2016 (R$ 123 bilhões) e proporcionará uma alta do lucro dos bancos em 2018.

“A queda da inadimplência proporciona uma redução das provisões, e uma [consequente] melhora no retorno das instituições”, disse o diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Paulo Souza, em coletiva realizada ontem sobre a divulgação do Relatório de Estabilidade Financeira (REF) sobre o segundo semestre do ano passado. Segundo o documento divulgado, a rentabilidade dos bancos foi fortemente beneficiada pela queda de R$ 23,3 bilhões nas despesas de provisão entre dezembro de 2016 e igual mês de 2017.

“A redução das provisões deve trazer resultados ainda melhores em 2018. Uma provisão quando revertida praticamente vira lucro”, aponta o professor e coordenador de graduação da Fundação Instituto de Administração (FIA), Rodolfo Olivo.

Na prática, esse recuo no provisionamento dos bancos só é possível com a queda dos calotes. “Houve uma redução da inadimplência e dos ativos problemáticos”, assegurou o diretor de fiscalização do BC.

Em sua apresentação, ele também destacou que já houve uma elevação do retorno sobre o patrimônio líquido (RSPL ou ROE) em 2017. “[O retorno] aumentou em 2017 e está 4 pontos [percentuais] acima da taxa livre de risco. Em 2015, ficava em torno de 6 pontos [acima da taxa livre de risco]”, ressaltou Paulo Souza.

Nos dados do REF, o lucro líquido contábil dos bancos no ano passado recuperou a faixa de R$ 80 bilhões obtida em 2015. Na média, o sistema financeiro reportou 54,8% de seus ganhos em 2017, na forma de dividendos ou de juros sobre capital próprio (JCP), sendo que os bancos privados distribuíram 67% de seus resultados, e as instituições públicas, 28% do lucro líquido.

Concentração nos grandes

Por outro lado, os cinco principais bancos – Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander Brasil – totalizaram lucro líquido de R$ 70,1 bilhões no ano passado, cerca de 87% dos ganhos de todo o Sistema Financeiro Nacional.

Os quatro grandes bancos brasileiros, ou seja, excluindo o Santander, concentram 78,5% do crédito e 76,35% dos depósitos. “No mundo todo, o sistema bancário tende a ser concentrado, pois a atividade está muito ligada a ganhos de escala, mas no Brasil, tivemos muitas fusões e aquisições nos últimos 10 a 15 anos, com a saída de estrangeiros”, identificou o professor Rodolfo Olivo.

Na visão do professor de pós-graduação em finanças, investimento e banking da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Alfredo Meneguetti, essa concentração nos principais bancos nacionais só diminuiria se houvesse novamente a entrada de capital estrangeiro para o setor no País.

“O volume de empréstimos por fintechs e cooperativas de crédito é muito pequeno diante do volume das grandes instituições. O governo deveria facilitar a entrada de capital estrangeiro de bancos espanhóis e americanos, mas isto ainda é visto com muita restrição. É uma reserva de mercado”, avaliou Meneguetti.

A professora e coordenadora de cursos de administração e gestão financeira da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Luciana Maia Campos Machado, contou que o problema da concentração bancária no Brasil se acentuou depois da crise global de 2008.

“Houve uma fuga de depositantes para os maiores. As pequenas instituições tiveram problemas de funding [captação de recursos] e se viram obrigadas a vender suas carteiras de crédito. E tivemos várias fusões no pós-crise”, lembrou.

Na opinião dela, o Banco Central manteve o sistema sólido e seguro nesse processo. “Mas a consequência, pelo aspecto negativo, seria a formação de um oligopólio, o que poderia levar a um aumento dos preços dos serviços e a redução do crédito disponível”, aponta a professora Luciana.

Ela acredita que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá um papel importante no investimento em fintechs e na inovação. “Para que se não se prejudique o sistema bancário como um todo”, comentou.

O professor Alfredo Meneguetti lembrou que o tema da falta de competitividade no sistema financeiro é conhecido pelo governo e por organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e daí a importância dos bancos públicos. “A Caixa Econômica deverá contribuir mais [para a competividade]. Nessa semana, anunciou uma redução dos juros para o financiamento imobiliário para 9% ao ano e a ampliação do volume de crédito”, completou.