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A política comercial de Donald Trump vem causando incertezas no mundo e atingindo em cheio os mercados emergentes. Brasil, Argentina e África do Sul estão entre os países afetados do momento. Por aqui, o cenário eleitoral indefinido faz com que a volatilidade cambial ganhe um aditivo. Porém, o caso mais preocupante do momento é o da lira turca.

A crise começou quando Trump anunciou que dobraria as tarifas sobre o aço e alumínio turcos, como retaliação à recusa em libertar o pastor católico Andrew Brunson, preso na Turquia sob acusações de terrorismo. O movimento norte-americano teve reações diversas, alguns viram o dólar sendo usado como arma política. Erdogan, presidente do país islâmico, disse que a desvalorização é resultado “de operações contra a Turquia”, não de condições econômicas desfavoráveis.

Na Turquia, segundo o economista Alex Agostini, da Austin Rating, a moeda já se desvalorizou 38% em relação ao dólar em 2018, sendo 20% em pouco mais de três dias. Isso representa um risco para as empresas do país, que possuem mais de 70% dos seus débitos na moeda americana. Ou seja, com a conversão, as dívidas aumentam assombrosamente. Além disso, a inflação anual chegou a quase 16%, contribuindo ainda mais para a perda do poder de compra da população.

Este cenário fez com que o interesse por Bitcoin aumentasse de forma significativa no país. Brian Armstrong, ceo da Coinbase, disse que acredita que um dos maiores motores de adoção dos criptoativos nos próximos anos serão as crises econômicas.

Essa situação na moeda local, que se reflete na economia turca como um todo, levou a uma procura maior para o Bitcoin, o que confirma a teoria de Armstrong. O volume da maior corretora de criptoativos turca, a Koinim, registrou um aumento de 63% durante a crise. Outras reportaram picos de 35% a 100% em seu volume. A procura foi tão alta que o spread – diferença entre os preços praticados em determinado local e preços de referência – entre a Turquia e o mundo abriu quase 8%.

O Bitcoin, nos últimos dias, vem navegando entre US$ 6,3 mil e US$ 6,5 mil. No país islâmico, o preço chegou a US$ 7 mil. Isso quer dizer que quem comprar Bitcoin nos EUA e vender na Turquia tem um lucro imediato de quase 8%.

Os turcos não estão procurando o Bitcoin para especular ou como meio de troca. A corrida ao criptoativo se dá para tê-lo como reserva de valor. As variações da moeda local estão fazendo com que o Bitcoin pareça mais seguro. Não é a primeira vez que isso acontece. Após rumores de que a Itália sairia da Zona do Euro, em junho, o preço mundial da criptomoeda subiu quase US$ 200.

Isso não significa que investir em criptoativos seja pouco arriscado. Deve-se sempre estudar e não arriscar capital antes de qualquer aplicação. O que a crise da Turquia nos mostra é o potencial do Bitcoin e que muitas vezes as moedas nacionais podem ser ainda mais.

Luiz Roberto Calado é economista-chefe da empresa de criptoativo Mercado Bitcoin

luiz.calado@mercadobitcoin.com.br