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SÃO PAULO

A Boa Vista Serviços, administradora do SCPC, está próxima de realizar a abertura de capital na Bolsa de Valores. Com participação superior a 25% do fundo de private equity TMG Capital, uma entrada no Novo Mercado da BM&FBovespa seria possível somente com os papéis da gestora, segundo executivos da Boa Vista, já que o mínimo exigido é de 25% de free float, isto é, ações disponíveis para negociação no mercado de capitais.

Fernando Cosenza, diretor de inovação e sustentabilidade da Boa Vista, detalha que o IPO (Oferta Inicial de Ações, na sigla em inglês) é sim uma opção para a saída da TMG Capital. "Para o desinvestimento da TMG, o IPO é uma das alternativas. O free loat seria atingido somente dando a participação da TMG, que na composição era de 35% e caiu um pouco com a entrada da Equifax".

Caso ocorra o IPO, a Boa Vista Serviços seria a primeira empresa de análise de crédito com ações na bolsa brasileira.

Criada em novembro de 2010, a Boa Vista Serviços é controlada pela Associação Comercial, que possui cerca de 60%. A TMG Capital possui cerca de 25% e a Equifax, que entrou na composição em junho de 2011, fica com 15%. O restante é dividido entre a Associação Comercial do Paraná e Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre. "Equifax tinha, na época, um faturamento de R$ 150 milhões", diz Cosenza.

Questionado sobre a estratégia de desvincular a imagem da Boa Vista da Associação Comercial de São Paulo, inclusive com a mudança da sede, o diretor diz que a própria associação percebeu a necessidade de uma nova arquitetura de negócio. "Assumimos um negócio que vinha em declínio. O SCPC vinha perdendo market share e faturamento", declara Cosenza, que acrescenta: "Fora da associação, o SCPC poderia ter negócios, porque a associação é uma entidade de classe e sem fins lucrativos. Então, foi procurada uma desmutualização".

Na década de 80, o SCPC possuía mais de 70% do mercado de análise de crédito, no qual o principal concorrente é a Serasa Experian. Em 2010, o market share era inferior a 30%. No atual momento, o executivo diz que a participação de mercado fica entre 40% a 45%.

No que se refere ao faturamento, de 2011 para 2012, houve crescimento de 17%, ao somar R$ 500 milhões. Para o ano de 2013, a expectativa é de expansão de 20%. "Os clientes começaram a sentir a diferença no dia a dia do negócio. Revertemos o faturamento. Em 2010 havia tendência de perda de mercado", diz Fernando Cosenza.

Outra mudança na gestão do novo negócio do SCPC veio com a divulgação de novos indicadores, além dos já publicados sobre a cidade de São Paulo. O economista Flávio Calife conta que quando chegou à companhia, em 2011, não existiam indicadores. "Criamos o de títulos protestados, cheques devolvidos, inadimplência, entre outros".

Calife ressalta que os estudos somente são divulgados após um período de pesquisa, como o indicador de movimento do varejo, divulgado agora pela primeira vez, referente ao mês de fevereiro, mas que levou seis meses para ser aprovado. "O nosso indicador de varejo apontava queda, mas todo o mercado apontava alta. Agora (quinta-feira) vimos que caiu 0,4%". Calife se refere ao desempenho do comércio varejista, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na última quinta-feira, no qual houve queda de 0,4% no volume de vendas em fevereiro na comparação com janeiro. Já a análise da Boa Vista apontava recuo de 0,7%. O economista revela que novos indicadores estão sendo pensados e devem sair em breve, como da inadimplência dos novos consumidores.

"Há estudos que mostram que 20% dos novos consumidores viram inadimplentes, porque não tem experiência e a instituição financeira não conhece o cliente", diz Calife.

Cadastro positivo

Aprovado pela Lei 12.414, de julho de 2011, o Cadastro Positivo ainda deve levar cerca de dois anos para começar a surtir efeitos no mercado de crédito. O diretor Fernando Cosenza argumenta que para ficar funcional é preciso compor o banco de dados de adimplentes, com autorização de um "relativo" volume de pessoas e com série histórica. "Cada empresa de análise terá o risco com o score [nota] e as empresas vão se apoiar nesse score. A Boa Vista terá a sua fórmula secreta. Mas a nossa base tem o destaque da pessoa física e não bancarizada, porque vem do varejo."

Desde fevereiro, contudo, a Boa Vista possui um site de consulta on-line, gratuita, do CPF e no Cadastro Positivo para pessoas físicas. Somente de consultas no site, o número de pessoas ultrapassou 2,5 milhões. Já no Cadastro Positivo, que inclui também envios de formulários pelo Correios, o número ultrapassa os 2,5 milhões.

"Para as consultas a nossa meta era de até 2,5 milhões até o final do ano, mas já ultrapassamos, então agora é de 3 milhões. Houve um pico no início, mas agora estabilizou em torno de 25 mil por dia", diz Cosenza.

O diretor opina que o modelo brasileiro precisava ser adaptado aos internacionais há alguns anos. "O crédito é a alavanca de mobilidade social. O Brasil precisava trocar o modelo do cadastro negativo, porque o score [nota] é o que outros países usam".