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A volatilidade no dólar, intensificada pelo conturbado cenário internacional de juros mais altos no exterior, e temores de guerra comercial entre potências como EUA e China afetam as captações via bônus e de renda variável de empresas brasileiras neste ano.

Segundo dados divulgados ontem pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as novas emissões de ações (IPOS e follow-ons) estão paradas e os lançamentos de bônus também apresentam queda em relação a igual período do ano passado.

“No ambiente externo, a desvalorização das moedas [de países emergentes] afugenta o investidor e atrapalha um pouco as emissões. Isso também acontece com as operações de ações, que perdem atratividade”, afirmou o diretor da Anbima, José Eduardo Laloni.

Ele explicou que as empresas ficam receosas para captar com o início do aumento dos juros lá fora, e no caso da renda variável, a volatilidade no câmbio influencia na decisão dos investidores estrangeiros, principal público para ofertas públicas iniciais de ações (IPOs). “Não se sabe a que preço [em dólar] vai entrar”, diz.

Pelos dados divulgados, a captação via bônus arrecadou US$ 12 bilhões nos primeiros seis meses deste ano, queda de 29,4% em relação aos US$ 17 bilhões no mesmo período de 2017. Já as emissões de ações captaram R$ 6,9 bilhões em recursos, queda de 51% em igual base de comparação.

Por outro ângulo, o diretor da Anbima disse que mercado doméstico de renda fixa está crescendo e funcionando normalmente. “Os preços das emissões estão saindo com taxas competitivas, tanto para emissores como para os investidores”, disse Laloni.

Em números, as captações totais do mercado de capitais aumentaram 18% no primeiro semestre de 2018 e atingiram R$ 144,5 bilhões, ante o montante de R$ 122,4 bilhões em igual período de 2017.

Laloni atribuiu parte desse crescimento do mercado de capitais ao tamanho da indústria de fundos de investimentos que alcançou R$ 4,3 trilhões em patrimônio. “Temos uma demanda natural dos fundos por papéis privados”, respondeu o diretor.

Outro fator de expansão é relacionado a demanda dos investidores pessoas físicas por fundos de investimentos imobiliários (FIIs) nesse momento de baixa da Selic – captação de R$ 8,5 bilhões em FIIs até o final de junho, frente R$ 4,4 bilhões em igual base de 2017.

As pessoas físicas também buscam por títulos incentivados como debêntures de infraestrutura, que possuem benefício fiscal da isenção do imposto de renda. “Há demanda muito consistente para incentivadas”, diz Laloni.

O volume de debêntures de infraestrutura saltou de R$ 2,1 bilhões no primeiro semestre de 2017 para R$ 9,6 bilhões no período de janeiro a junho de 2018, segundo a Anbima.

No total do segmento, a emissão de debêntures (títulos de dívida corporativa de longo prazo) alcançou R$ 60,5 bilhões no primeiro semestre de 2018, acima dos R$ 29 bilhões em igual período em 2017. Já as operações com títulos de dívida corporativa de curto prazo (notas promissórias) somaram R$ 17,4 bilhões até junho último, contra R$ 6,1 bilhões em igual período de 2017.

Autorregulação

Questionado pelo DCI, sobre escândalos financeiros recentes envolvendo debêntures fraudulentas, o diretor respondeu que a Anbima está atenta a essa questão e que busca melhorar os instrumentos de autorregulação do mercado.

“Foi um valor muito pequeno [nestes episódios] que não afeta a imagem do setor. A Anbima continua em seu esforço de autorregulação para tornar o mercado de capitais cada vez mais seguro”, assegurou.

De fato, segundo comunicado divulgado ontem pelo Ministério Público Federal (MPF), pelo menos quatro fundos da Gradual Investimentos reuniam 3 mil debêntures fraudulentas da Integrated Tecnology Systems (ITS@). O MPF calcula que os desvios decorrentes da subscrição primária das debêntures sem lastro emitidas pela ITS@ capitalizaram a Gradual em R$ 20,5 milhões.