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A crise cambial poderá atingir mais países emergentes. Para o Brasil, o alto nível das reservas ameniza os riscos no câmbio, mas a exposição comercial e a indefinição política trazem vulnerabilidade e exigem continuidade à postura firme do Banco Central nos contratos de swaps cambiais.

A desvalorização de 20% acumulada no ano pela lira turca e a nova mínima recorde da moeda após o alerta da Fitch Ratings sobre os rumos da economia na Turquia, abriu o leque de preocupações de investidores sobre a expansão da crise cambial no mundo com a supervalorização do dólar norte-americano. “Apesar de a reserva no Brasil ser muito grande para deixar que a crise cambial chegue no País, outros países em desenvolvimento com volumes menores são mais vulneráveis e podem ser afetados”, comenta o gerente de câmbio da B&T Corretora, Marcos Trabbold.

Entre os emergentes, por sua vez, os países com maior propensão a sentir tais efeitos cambiais são, principalmente, México, Rússia e África do Sul.

“De qualquer forma o mercado repudia os investimentos que têm nos emergentes. Ou o investidor faz hedge ou repatria o capital em um lugar que considere mais seguro”, diz o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.

A maior busca por proteção pelos investidores já reflete, por exemplo, as negociações no Brasil e a própria atuação do Banco Central, que acabou por triplicar a oferta de swaps cambiais nessa semana, de US$ 250 milhões para US$ 750 milhões. Com a mudança, a expectativa é que até o final de maio, o montante negociado alcance os US$ 6,5 bilhões.

Segundo o diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, a desvalorização do real ante o dólar acima da média de outros emergentes está mais ligada ao cenário doméstico do que como reflexo de riscos internacionais.

“As nossas incertezas não apenas em relação à sugestão presidencial, mas também em relação à própria economia e aos problemas fiscais também influenciam esse movimento”, avalia o especialista, mas pondera que a atuação mais firme do Banco Central não significa que o “dólar vai despencar”.

“Mesmo com a atitude do BC de dar maior liquidez ao mercado, a moeda continua com viés de alta porque os fatores internos do País vão se agravar. Tanto na área política quanto em relação ao orçamento para 2019 acentuarão o risco no Brasil”, completa.

Ontem, o dólar encerrou com sua terceira queda consecutiva, a R$ 3,6238 (-0,56%).

Contágio no Mercosul

Os especialistas consideram, no entanto, que ainda que a crise cambial não atinja diretamente o Brasil, a nossa exposição comercial com a Argentina, por exemplo, e a incerteza futuras ainda podem trazer vulnerabilidade ao País.

“O comércio exterior do Brasil com a Argentina é grande e, caso a situação desses países comece a se deteriorar, poderemos ser atingidos por tabela”, analisa Galhardo.

Já para Nehme, apesar de possível, a questão ainda é bastante especulativa, ainda mais considerando que tanto a Argentina quanto a Turquia já tomaram suas devidas precauções com o aumento de juros.

“Ainda assim a contaminação, se vier, será diretamente no comércio exterior e não no câmbio. A Argentina é um grande comprador da nossa indústria automobilística, por exemplo, o que poderia reduzir o número de vendas ou trazer atraso nos pagamentos”, reflete o executivo da NGO.

O impacto, porém, ainda não pode ser visto. De acordo com os últimos dados do Banco Central, divulgados ontem, o fluxo cambial do ano até o último dia 18 é positivo em US$ 17,3 bilhões; como também é positivo no comércio exterior, com US$ 24,2 bilhões na mesma relação.