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As dúvidas sobre os planos do próximo governo fomentaram a volatilidade no câmbio ontem, um dia após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno das eleições. O dólar oscilou de R$ 3,58 (mínima) até máxima de R$ 3,71 e fechou em R$ 3,7022.

Segundo profissionais de mercado consultados pelo DCI, declarações do presidente eleito e de um provável ministro do governo aumentam os questionamentos sobre como será a política monetária nos próximos 4 anos.

Em entrevista ontem a jornalistas no Rio de Janeiro, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM) reafirmou que o Banco Central (BC) será independente no governo Bolsonaro e que as metas a serem cumpridas pelo BC, sobre inflação e os juros, serão estruturadas pelo economista Paulo Guedes, indicado para ministro da Economia. “Se temos um País que precisa de inflação sob controle, você tem que ter variações [do câmbio] para aceitar que a inflação esteja dentro do razoável”, respondeu Lorenzoni.

Já no mercado de renda variável da B3, o investidor preferiu vender parte das ações para obter os lucros recentes. Com isso, o Ibovespa encerrou em queda de 2,24%, aos 83.796,71 pontos, mas com volume considerado expressivo, de R$ 24,18 bilhões.

“Foi um claro movimento de realização de lucros, muita gente comprou na sexta-feira (26/10), até pessoas físicas do varejo, e já vendeu [ontem]”, contou o estrategista-chefe da gestora Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua.

Para o diretor de estratégia e de inovação da Meu Câmbio, Mathias Fischer, o mercado agora espera mais detalhes sobre os planos e as medidas do próximo governo, principalmente em relação à reforma da previdência. “O principal drive é a discussão do ajuste fiscal. O [deputado] Onyx Lorenzoni disse que a reforma proposta por Temer seria um remendo que duraria 4, 5 anos. A nova proposta será para durar pelo menos 30 anos”, diz Fischer.

A reforma atual – do governo Michel Temer – está pronta para ser votada na Câmara dos Deputados, mas depende de um acordo político com o presidente eleito para ser votada ainda nesta legislatura. A hipótese de uma aprovação em 2018 era desejada pelo mercado para que o próximo mandato iniciasse sem sobressaltos com outras questões políticas que pudessem interferir na dinâmica do Congresso.

“Defendo reforma da Previdência que se faça uma única vez. O atual governo propôs apenas um remendo, mas a reforma tem que ser de longo prazo”, disse ontem à imprensa, o provável ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Na prática, o deputado fala de uma proposta mais abrangente de reforma, que separe os gastos de Assistência Social da previdência contributiva.

“O ideal seria uma proposta de reforma que causasse o mínimo dano aos trabalhadores. Separar a assistência social da previdência, de todo jeito, acaba sendo mais impopular para os trabalhadores e encontrar resistências [políticas]”, avaliou a economista do App Renda Fixa, Fernanda Fonseca.

Na avaliação da economista, conforme os planos do futuro governo forem divulgados, o mercado reagirá positivamente. “A precificação da eleição já tinha acontecido, é normal que o Ibovespa tenha aberto em alta, e que alguns investidores tenham aproveitado para vender. Mas ainda tem espaço para oportunidades na bolsa”, afirma Fernanda.

Papéis de estatais

Em um pregão marcado pela realização de lucros, os preços dos papéis das estatais variaram da alta pela manhã de ontem, para uma baixa significativa à tarde. A ação com direito a voto (ON) da Eletrobras figurou entre as maiores quedas do Ibovespa, desvalorizando 5,53% para R$ 22,03.

“Ninguém espera mais a privatização total da Eletrobras, mas sim, a venda de subsidiárias. E os investidores também querem saber como será a gestão das empresas, e quem serão os nomeados, se são da iniciativa privada, diante da promessa de que não vão ser indicações políticas”, lembrou o estrategista da Levante.

Pensamento semelhante sobre esse detalhamento vale para outras empresas federais e estaduais. A ação preferencial (PN) da Cemig caiu 5,48% para o valor de R$ 11,39 após a confirmação da vitória do empresário Romeu Zema (Novo) para o governo de Minas Gerais.

Entre os papéis mais negociados, a ação preferencial da Petrobras teve queda de 4,28% para R$ 26,42 no encerramento, ainda em meio às dúvidas sobre a nova política de preços de combustíveis do próximo governo tanto para a gasolina, como para o óleo diesel.

Este último é uma fonte de preocupação por causa dos subsídios com data de término para primeiro de janeiro, ainda reflexo da greve dos caminhoneiros ocorrida em maio.

Já no setor financeiro, o papel com direito a voto (ON) do Banco do Brasil teve apenas uma leve baixa de 1,30% para a cotação de R$ 41,87 – oscilação considerada dentro da normalidade pelos especialistas. Entre os pares privados, a queda foi maior, a ação preferencial do Itaú Unibanco caiu 1,84% para R$ 48,08 enquanto o papel PN do Bradesco recuou 1,88% para R$ 33,45.