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A emissão de títulos de dívida corporativa doméstica de longo prazo (debêntures) cresceu 75,71% no primeiro trimestre de 2018 para R$ 21,316 bilhões, contra R$ 12,131 bilhões registrados em igual período inicial do ano passado.

Entre os motivos para esse crescimento expressivo das ofertas de debêntures está o incentivo da redução da taxa básica de juros (Selic), que recuou 5,75 pontos percentuais nesse período, de 12,25% para 6,5% ao ano.

Além desse barateamento inercial nos custos de financiamentos pós-fixados, o juro médio em emissões de debêntures caiu do patamar de 105,2% do DI registrado no primeiro trimestre do ano anterior, para 103,2% do DI nos três meses iniciais de 2018, conforme dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“Com a baixa dos juros, acreditamos que o mercado de capitais tenha uma participação maior. Isso já está ocorrendo. O destino dos recursos vai começando a mudar [de títulos públicos para papéis privados]”, constatou o diretor da Anbima, José Eduardo Laloni, em teleconferência realizada ontem.

O executivo também fez questão de destacar em sua apresentação o crescimento de 264% no volume de debêntures de infraestrutura para R$ 3,4 bilhões de janeiro até março. Esses papéis voltados para investimentos em projetos de infraestrutura tiveram alongamento dos prazos, de 8,6 anos para 10,7 anos.

Segundo o boletim da Anbima, o spread (prêmio) médio de juros nessa categoria com incentivos fiscais (isenção de impostos) para pessoas físicas e estrangeiros caiu de 6,6% para 6%. Como são operações de longo prazo, esses títulos são atrelados ao Índice de Preço de Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial no País.

Questionado pelo DCI sobre as expectativas para o mercado de capitais com juros em patamares historicamente baixos, José Eduardo Laloni respondeu que um maior número de ofertas depende do crescimento da economia. “Temos muita capacidade ociosa ainda. A economia precisa crescer mais rápido. Se o PIB [Produto Interno Bruto] aumentar de 2,5% a 3%, o mercado de capitais vai se tornar uma fonte de financiamento importante”, disse.

O diretor contou que o próprio governo está colocando o mercado de capitais nas estatísticas de crédito corporativo. “Os bancos estão formando equipes para tratar emissões de empresas menores. O mercado de capitais está preparado e dará sua contribuição [no financiamento de investimentos]”, considerou Laloni.

Na frente de relações institucionais com o governo, o diretor contou que a Anbima espera a regulação dos fundos de infraestrutura ainda em 2018. “Temos tido conversas com a CVM [Comissão de Valores Mobiliários] e com o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] e dá para fazer um trabalho independente das eleições”, diz.

Laloni explicou que as propostas sugeridas pela Anbima aos reguladores não dependem de votação no Congresso Nacional. “Nossa expectativa é que uma audiência pública [trate desse tema] e termine ainda este ano”, disse o diretor.

Números gerais

Se por um ângulo, o crescimento do volume em debêntures foi o destaque positivo no primeiro trimestre de 2018, por outro, as ofertas iniciais de ações (IPOs) em análise na CVM ou em andamento foram postergadas para o segundo trimestre. “Temos várias ofertas em andamento, mas vamos depender da conjuntura do mercado local [eleições] e internacional [questão comercial entre EUA e China]”, avisou.

Na fila da renda variável para uma janela de oportunidade estão os IPOs: Grupo SBF, Banco Inter, Hapvida, Blau Farmacêutica, Notre Dame Intermédica e JHSF Malls.

Sem ofertas iniciais de ações até março, o mercado de capitais – somando bônus emitidos no exterior, renda fixa e híbridos no mercado local – cresceu apenas 0,3% para R$ 60,7 bilhões ao todo. Desse total, as 13 operações de bônus no exterior representaram R$ 31,5 bilhões ou US$ 9,8 bilhões em recursos captados lá fora.