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Apostando em um recuo da taxa básica de juros (Selic) nos próximos meses, as empresas estão dando preferência às operações de crédito com taxas de juros flutuantes, ou seja, que variam até o final do contrato.

Segundo dados divulgados na semana passada pelo Banco Central (BC), o volume de concessões de empréstimos com esse tipo de taxa atingiu a marca de R$ 16,3 bilhões em junho, alta de 5% em relação ao mês anterior. No ano, a elevação foi de 9,8%.

As operações com taxas fixas (pré-fixadas), por sua vez, continuam na liderança, com R$ 45,4 bilhões. Entretanto, caíram 1,6% na comparação com maio e 0,9% no ano.

Os empréstimos pós-fixados também estão recuando. Em junho, o volume de concessões para pessoas jurídicas foi de R$ 10,9 bilhões, queda de 2,5% em relação ao mês anterior e de 5,2% no ano.

Segundo especialistas consultados pelo DCI, em tese, com a perspectiva de queda para a Selic até o final do ano, o ideal seria tomar empréstimos com taxas flutuantes e aplicar em taxas pré-fixadas. "Mas isso depende muito das condições oferecidas pelos bancos. Dependendo da estratégia, a instituição pode 'forçar' o cliente a contratar determinado tipo de taxa", alerta o professor de finanças da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Keyler Carvalho Rocha.

As pessoas físicas, por exemplo, quase não têm acesso a linhas de crédito com taxas variáveis.

Dos R$ 38,6 bilhões concedidos em junho para linhas como crédito pessoal, cheque especial e financiamento de veículos, entre outras, apenas R$ 187 milhões foram por meio de taxas variáveis.

"Os consumidores não estão dispostos a correr riscos na hora de tomarem financiamentos. Eles querem saber exatamente o valor das prestações que vão pagar", explica o acadêmico.

Para o vice-presidente do banco BGN , Bartolomeu Brederodes, em geral, as pessoas físicas não possuem conhecimento suficiente para decidir pela melhor modalidade de taxa de juros. "Os clientes precisam estar ciente dos riscos, que podem ser grandes, dependendo das mudanças conjunturais", afirma.

Risco elevado

Segundo o executivo, os riscos para as instituições financeiras oferecerem empréstimos flutuantes também são grandes, já que alguns clientes podem alegar que não foram suficientemente esclarecidos e criar problemas no Judiciário e em órgãos de defesa do consumidor.

Na avaliação de Brederodes, o fato de a maioria das concessões para empresas ainda ser em taxas pré-fixadas indica que muitos diretores financeiros estão apostando em uma estabilidade ou até mesmo alta dos juros nos próximos meses. "Alguns gestores financeiros já estão enxergando uma contaminação da atual crise política na economia", acredita.

Para os bancos, o ideal é emprestar em taxas variáveis, já que a captação de recursos, na maioria dos casos, também é feita a taxas variáveis. "Os títulos pré-fixados são usados apenas para operações de curto prazo, de no máximo três meses", diz o vice-presidente do BGN, que é ligado ao grupo Queiroz Galvão .

Em um cenário de instabilidade como o atual, a recomendação do executivo é pelas taxas pós-fixadas. "Sempre que possível, é melhor tomar recursos com taxas variáveis. Se ocorrer uma queda dos juros, o cliente não perde. No caso das taxas pré-fixadas, em geral elas custam mais do que as demais." De acordo com dados do BC, em junho, o juro médio cobrado dos tomadores de capital de giro flutuante foi de 27,7% ao ano. Já nas operações pré-fixadas, o custo foi de 39,6% ao ano.

A conta garantida (espécie de cheque especial das empresas) flutuante custou em média 28,6% ao ano, contra 70,2% do mesmo produto, mas com taxa pré-fixada.

Na linha aquisição de bens, a diferença foi menor. Enquanto a taxa flutuante foi de 26,8% ao ano, a pré-fixada foi de 31,3%.

"Independente do cenário esperado, o ideal é que os tomadores de recursos avaliem com cuidado as condições de cada tipo de linha disponibilizada. É preciso olhar o custo da operação naquele momento e ponderar as expectativas futuras. Em alguns casos a opção lógica pode não ser a melhor", alerta o professor Rocha.