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A euforia dos investidores locais com ações da bolsa de valores causada pelo resultado do primeiro turno das eleições no último domingo fez o Ibovespa disparar 4,57% e movimentou R$ 29 bilhões ontem, o triplo do volume médio negociado diariamente na B3.

Mas, na opinião de profissionais do mercado de renda variável consultados pelo DCI, a euforia deve durar até a divulgação da próxima pesquisa eleitoral, ou, no máximo até o primeiro debate na tevê entre os presidenciáveis e servir de motivos para uma realização de lucros (vendas) no curtíssimo prazo. Até o final do ano, a expectativa é do índice na faixa dos 90 mil pontos, ante 86.083 pontos no encerramento de ontem.

“Uma pesquisa que mostre um resultado mais apertado no segundo turno pode trazer uma realização de lucros no curto prazo”, avisa o diretor de investimentos da Mirae Asset, André Pimentel.

Ontem, em repercussão à vitória no primeiro turno do candidato com programa liberal na economia, Jair Bolsonaro (PSL), o Ibovespa disparou puxado por papéis das principais estatais federais: Petrobras PN, Petrobras ON, Eletrobras PNB, Eletrobras ON e Banco do Brasil ON.

O volume financeiro nos negócios alcançou R$ 29 bilhões, num pregão sem a presença de muitos estrangeiros por causa do feriado antecipado de Columbus Day para ontem, nos Estados Unidos.

“Alguns fundos de investimentos globais estão recomendando posições de compra no Brasil para esta terça-feira (hoje), o que pode movimentar ainda mais o mercado”, disse Pimentel.

Sem o público de fora, que já estava “comprado” na bolsa de valores nos últimos dois meses com aportes de R$ 13 bilhões, Petrobras PN disparou 11,08% para R$ 26,60; Eletrobras PNB avançou 18,31% para R$ 26,75; Petrobras ON subiu 17,33% para R$ 22; e Banco do Brasil ON valorizou 9,68% para fechar em R$ 39,20 ontem.

Ao mesmo tempo houve forte valorização de estatais estaduais como Cemig (16,76%) e Copasa (5,6%) com a definição do segundo turno em Minas Gerais entre o empresário Romeu Zema (Novo) e o senador Antonio Anastasia (PSDB).

“Com a derrota de Fernando Pimentel (PT), o cenário para o segundo turno para o governo em Minas Gerais ficou todo pró-mercado, com a possibilidade de privatização das estatais para equacionar a crise fiscal no estado”, argumentou o estrategista da Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua.

Ele comentou que o investidor local viu o resultado das urnas com muita emoção. “Ninguém leu uma notícia internacional. E é o mesmo investidor que na última sexta-feira tinha reduzido suas posições para dormir tranquilo no final de semana. O estrangeiro está comprado há dois meses [e lucrou]”, comparou.

A analista da Coinvalores, Sabrina Cassiano, contou que além das estatais federais e mineiras, outros papéis de empresas públicas também subiram ontem como Light, Copel e Sabesp. “As ações pegaram embalo e valorizaram”, disse.

De fato, Copel PNB saltou 17,44% e atingiu R$ 26,47; Copasa ON subiu 5,6% e fechou em R$ 41,11; e Light ON evoluiu 12,67% para encerrar no valor de R$ 15,92 por ação.

Para o assessor de investimentos da Monte Bravo, Bruno Madruga, a expectativa de um eventual governo liberal de Bolsonaro sobre o comando do economista Paulo Guedes faz com que os papéis de estatais tenham uma valorização mais expressiva. “Seja pela mudança de gestão nas empresas, seja pela possibilidade de privatização”, disse.

Madruga ressaltou o cenário mineiro, onde o candidato do partido Novo, Romeu Zema, teve 42,73% dos votos válidos contra 29,06% do tucano Antonio Anastasia (PSDB). “A proposta do Novo de privatização pode ajudar numa solução para as contas públicas de Minas Gerais”, destacou o assessor.

Ainda na ponta positiva do Ibovespa, papéis mais negociados como Itaú Unibanco PN (5,95%) e Bradesco PN (6,78%) apresentaram forte valorização, graças ao clima de otimismo com a possível vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno. Fora do Ibovespa, o papel com direito a voto (ON) da fabricante de armas de fogo Forjas Taurus saltou 18,29% para o valor de R$ 8,99 por ação.

O real valorizado pela euforia também influenciou nos negócios. Com a queda de 2,4% do dólar para R$ 3,7635 no mercado à vista, as ações de Gol Linhas Aéreas saltaram 18,71% para R$ 14,72.

Reflexos indiretos

Na ponta contrária, papéis de exportadoras – antes beneficiadas pela alta do dólar – tiveram perdas com a realização de lucros. “O setor de papel e celulose e a Vale tinham valorização [anterior], mas com a baixa do dólar apresentaram reflexos”, ponderou o analista chefe da Rico Investimentos, Roberto Indech. Klabin Unit caiu 1,2%; Gerdau PN (-1,2%) e o papel da acionista da Vale, Bradespar PN recuou 1,09%.