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No cenário base – desejado pelo mercado – de privatizações e do andamento das reformas da Previdência e tributária no próximo governo, as empresas exportadoras e as instituições financeiras devem se proteger (hedge) de uma apreciação do real.

Essa é recomendação de economistas consultados pelo DCI que participaram da conferência Eurofinance – Gerenciamento Internacional de Tesouraria, Caixa e Riscos para Empresas no Brasil, realizada ontem, em São Paulo.

“O choque liberal vai produzir um crescimento liderado pelo investimento e não mais pelo consumo. No câmbio, se eliminar a variável Trump, o viés é de apreciação do real”, aponta o PhD, presidente da Projeta Consultoria Econômica e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Langoni.

Ao mesmo tempo, o PhD alerta que a volatilidade no mercado de câmbio será grande até que o futuro ministro da economia do governo Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, tenha efetividade na implementação das medidas.

“No curto prazo, a taxa Selic vai continuar em 6,5% ao ano, mas quando a economia crescer num ritmo mais forte vai para 7%, 8% ao ano”, aponta Carlos Langoni.

Na mesma concordância de cenário, o professor de economia da FGV Márcio Holland aponta que as empresas exportadoras devem se proteger de uma apreciação da moeda local (real) e, em relação ao ambiente interno, se proteger do aumento dos juros para até 8% ao ano. “Já o investidor terá que olhar para os juros pós-fixados na curva longa [longo prazo]”, recomendou.

Langoni acredita que chicago olds (economistas experientes que passaram pela Escola de Chicago, nos EUA) como Paulo Guedes e Joaquim Levy, e outros FGV Olds do “Shopping Ipiranga” do governo Bolsonaro vão implementar um processo de abertura comercial. “Precisamos de acordos com a China, EUA, TPP [Aliança Transpacífico]. Se nossa abertura comercial passar de 25% para 40%, nosso Produto Interno Bruto vai crescer 4%, 5% ao ano”, prevê.

Holland complementou que o Brasil necessitará de investimento externo para crescer. “Vamos precisar de funding, e só os estrangeiros têm capital de longo prazo, 20 a 30 anos. O problema é a volatilidade cambial, e o Tesouro não tem condições de ser protetor do risco de câmbio”, disse o professor.

Ele comentou que o governo eleito “mal tomou assento” [nem tomou posse] já anuncia uma reforma da Previdência fatiada. “Mas a situação das contas públicas está tão ruim, que o pouco que fizer, já vai fazer delta [gerar resultados]”, considera Márcio Holland.

O professor ainda ressaltou que o País possui tantos problemas domésticos, que os jornais dão pouco destaque para os fatores externos. “99,9% é problema doméstico. O Brasil é um País muito fechado, mas o investimento direto estrangeiro continua muito bem, obrigado”, afirmou Holland.

Por outro lado, ele ponderou que enquanto nosso País vai ter uma recuperação, as economias globais vão estar em ritmo menor. “O Brasil está saindo de uma recessão”, diz.

Langoni explica que o cenário mais realista e provável é de uma desaceleração da economia global. “É o processo de normalização monetária do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) pois os juros baixos de antes estavam fora de qualquer realidade. Mas o Fed tem dado um show de competência em gerir as expectativas, o presidente Jerome Powell disse que está se chegando próximo da taxa neutra, e isso deixou os mercados mais calmos”, diz.

O efeito da política do Fed foi fortalecer o dólar, com reflexo para os mercados emergentes de commodities. “O impacto não é tão grande, contraditoriamente, o mundo não vai muito bem, e está ajudando o Brasil”, diz Holland.

Futuro de inovação

Para o CEO da Saint Paul Escola de Negócios e vice-presidente do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Executivo de Finanças (IBEF), José Cláudio Securato, se o próximo governo endereçar a reforma da Previdência, a desvinculação do orçamento e a simplificação tributária, o cenário será muito promissor.

“O futuro é de transformação digital, algoritmos, inteligência artificial nas empresas e nos bancos, com ganhos financeiros para o longo prazo, sem perder competitividade”, disse.