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A maior competição das fintechs já tem afetado o resultado dos quatro maiores bancos do País no segmento de cartão de crédito. Ao mesmo tempo, o discurso entre as instituições é de igualdade no tratamento do Banco Central (BC) para regulação e monitoramento.

Só no terceiro trimestre, por exemplo, a soma das receitas com cartões das quatro maiores instituições do País (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) mostrou um crescimento – ante os três meses imediatamente anteriores – R$ 32 milhões inferior ao observado na mesma comparação de 2017.

Enquanto as receitas do trimestre passado somaram R$ 7,984 bilhões – alta de R$ 258 milhões (+3,3%) ante os meses de abril a junho (R$ 7,726 bilhões) – o mesmo intervalo de comparação de 2017 registrava um crescimento de R$ 290 milhões (+3,9%, de R$ 7,335 bilhões para R$ 7,625 bilhões).

De acordo com o economista do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC Boa Vista) Vitor França, o movimento de queda acompanha o constante aumento da concorrência tanto na oferta de cartões quanto no mercado de adquirência.

“Mesmo o resultado dos bancos tendo sido muito bom, a receita de cartões dos quatro bancos deixa nítido o quanto a vinda das fintechs já está afetando o resultado não só da própria instituição financeira, mas das empresas nas quais esses bancos são donos ou sócios”, afirma.

Nesse sentido, a Rede – que teve alta nos credenciamentos do terceiro trimestre com igual período de 2017 e queda na base de equipamentos na mesma relação– é do Itaú; e a Cielo – que registrou queda de 22% no lucro de julho a setembro – é controlada por Bradesco e BB.

As fintechs, da outra ponta, também já começam a entrar no movimento. É o caso da Hubcash, por exemplo, iniciativa trazida recentemente e que pretende, em 2019, lançar o Mobile POS – a maquininha implementada no celular.

“Os micro, pequenos e médios empresários por muito tempo lutaram com os grandes players por conta de taxas e custos. Agora, isso será diferente”, diz o sócio-fundador da fintech, Robson Parzianello.

“Temos sucesso porque atuamos em cima das dores do segmento que são, da mesma forma, as dificuldades dos grandes players. E será muito difícil para que os tradicionais alcancem os novos, que já nascem em um novo modelo e formato”, acrescenta.

O mesmo pode ser visto, em outros segmentos de negócios dos grandes bancos.

Com a abertura do BC à inovação e as recentes ações voltadas para a facilitar e agilizar a atuação das fintechs no sistema financeiro, por exemplo, especialista já projetam que o próximo impacto nas receitas dos bancos seria exatamente nas contas-correntes.

Somada à modalidade do cartão, as duas representam 51,7% do total de receitas com tarifas e serviços dos quatro maiores bancos do País.

“Estamos vivendo um momento novo. Muitas das fintechs já estão autorizadas a oferecer conta-corrente, e o fazem com serviços básicos gratuitos ou a preços bem mais baixos. Seguindo a linha que temos visto com a evolução das regulamentações e observando as oportunidades, ou os bancos reagem ou as contas-correntes serão as próximas”, diz França.

‘Tratamento igualitário’

Do ponto de vista regulatório, enquanto as iniciativas financeiras defendem o aperfeiçoamento das regras trazidas pelo BC, os bancos reiteram a necessidade de rigor nas normas e na fiscalização da autoridade monetária de forma igualitária para todos os players.

“Vemos que as empresas que fazem as mesmas coisas precisam ser regulamentadas da mesma maneira”, disse o presidente do Itaú, Candido Bracher, na divulgação de resultados do banco.

“Só assim, a concorrência será saudável”, completou.

A abordagem e postura são as mesmas do presidente do Santander, Sérgio Rial.

“Acho ótima a maior competitividade, mas não acreditamos em abordagens distintas do regulador. Não dá para o regulador amarrar um braço nosso e pedir que façamos nossa melhor apresentação de esgrima”, afirmou Rial.

Os especialistas ouvidos pelo DCI ponderam que essa, porém, é uma “grande injustiça”.

“O desafio, sempre, é equilibrar o incentivo à inovação e o risco do sistema”, diz França.

“Tratar uma fintech da mesma forma que um grande banco é não deixá-la nascer. Essa ideia não resiste aos fatos e argumentos porque, se é preciso descentralizar o mercado, é necessário que para cada peso haja uma medida”, completa o sócio e presidente da Boanerges & Cia, Boanerges Freire.

“Mas o BC continuará caminhando para promover competição, acesso e interoperabilidade. Só assim o sistema poderá crescer”, conclui.