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São Paulo - Com o crescimento do número de brasileiros endividados e inadimplentes, um grupo de fintechs - startups que oferecem serviços financeiros - se especializou em oferecer para instituições financeiras e para varejistas a recuperação desses clientes.

Essas empresas novatas utilizam a tecnologia e uma grande base de dados para conseguir maior rapidez e eficiência nas negociações, em contraste com o modelo padrão de call center adotado tradicionalmente pelas grandes companhias.

"A indústria de cobrança tem o seu modelo baseado em ligações telefônicas, algo bem impessoal", diz Alexandre Lara, cofundador da startupKitado. Ele acredita que falta informação para os endividados. Ou seja, esses podem deixar de quitar compromissos, não por má fé, mas, sim, por não ter o dinheiro e não saber o melhor método de negociação com os credores.

De acordo com pesquisa da Serasa Experian, há, hoje, 60 milhões de brasileiros inadimplentes, que representam mais de 41% da população acima de 18 anos de idade. O estudo aponta ainda que 77,2% dos devedores ganham até dois salários mínimos.

Com essa demanda e dificuldade de informações, no caso do Kitado, por exemplo, este entra em contato com os devedores via redes sociais, e-mail ou WhatsApp, e oferece as melhores opções para a renegociação das dívidas. Além disso, a startup se comunica com quem tem débitos a fim de ajudar as pessoas a não se endividarem novamente. A startup já realizou cerca de 200 mil acordos para seus clientes.

Outro exemplo é a PagoSim. Os fundadores da startup também observaram a dificuldade das empresas de entrar em contato com os devedores, enquanto estes, por sua vez, não sabiam ao certo quanto deviam e como deveriam começar a negociação.

A startup alcançou 50 mil downloads em seu aplicativo, lançado há três meses, e utiliza essa base de dados. De acordo com um dos fundadores, Paulo Silva, o usuário precisa apenas colocar o seu CPF e, por meio de tecnologia, a PagoSim calcula o valor atualizado da dívida, bem como identifica as empresas com as quais a pessoa está em débito.

"Com nosso algoritmo mostramos o valor atual e como é possível negociar", diz Silva. Ele diz ainda que 80% dos devedores respondem que querem negociar o débito naquele momento ou nos dois meses seguintes. A PagoSim cobra apenas de seus clientes, que mandam uma carga determinada de pessoas que não consegue localizar, e a startup retorna com a quantidade de contatos encontrados.

Outro fator de crescimento dessas fintechs é a afinidade do público mais jovem com a tecnologia. Também de acordo com a Serasa Experian, os jovens representam a segunda maior faixa etária com mais dívidas atrasadas: 9,4 milhões de pessoas entre 18 e 25 anos estão nessa situação.

"Os jovens utilizam mais a internet para negociar suas dívidas porque é mais ágil e eles já estão acostumados com essa tecnologia", avalia Daniel Gatti, professor de ciência da computação da PUC-SP.

Bancos

Com essa tendência de pedir ajuda a startups, o Bradesco apoiou o serviço do QueroQuitar por meio de seu programa InovaBra. O banco testou esse novo modelo no qual as propostas são feita on-line, novamente desfazendo a tradicional ligação telefônica para cobrança para recuperar seus devedores. Depois de passar por uma fase de testes, o Bradesco gostou do resultado e está negociando contrato com a startup. "Vamos usar uma carteira maior, de R$ 10 bilhões, uma carteira de inadimplência massificada", revelou Marc Lahoud, fundador do QueroQuitar.